VII DOMINGO DA PÁSCOA - ASCENSÃO DO SENHOR - Um Modo Diferente de Estar Próximo Com a entrada de Jesus na glória do Pai, mudou alguma coisa aqui na terra?
Exteriormente, nada. A vida das pessoas continuou a ser a que era antes: semear e colher, comerciar, construir casas, viajar, chorar e rir, tudo como antes. Também os Apóstolos não tiveram nenhum desconto sobre os dramas e as angústias experimentados pelas outras pessoas. Todavia, algo de incrivelmente novo aconteceu: sobre a existência do homem foi projectada uma luz nova.
Num dia de nevoeiro, repentinamente aparece o sol. As montanhas, o mar, os campos, as árvores do bosque, os perfumes das flores, o canto dos pássaros permanecem os mesmos, mas é diferente o modo de os ver e de os entender.
Isto acontece também a quem é iluminado pela fé em Jesus subido ao Céu: vê o mundo com olhos renovados. Tudo adquire sentido, nada entristece, já nada assusta.
Para além das desventuras, das fatalidades, das misérias, dos erros da pessoa vê-se sempre o Senhor que constrói o seu reino.
Um exemplo desta perspectiva completamente nova poderia ser o modo de considerar os anos da vida. Todos conhecemos, e talvez nos venha vontade de sorrir, algum octogenário que tem inveja de quem tem menos anos do que ele, que se envergonha da sua idade... enfim, que dirige o olhar ao passado, não ao futuro. A certeza da Ascensão inverte esta perspectiva. Enquanto vão passando os anos, o cristão está satisfeito porque vê aproximar-se o dia do encontro definitivo com Cristo; está contente por ter vivido, não inveja os mais novos, mas olha-os com ternura.
Para interiorizar a mensagem, repetiremos: - Os sofrimentos do momento presente não são comparáveis à glória futura que será revelada em nós.
PRIMEIRA LEITURANo Monte das Oliveiras foi construído, pelos cruzados, um pequeno santuário octogonal, transformado mais tarde em mesquita pelos muçulmanos em 1200. Eu estava a explicar a alguns peregrinos que esta pequena edícula actualmente tem um tecto, mas originariamente não o tinha para recordar a Ascensão de Jesus ao Céu. Alguém mais desenvolto no grupo comentou: «Não tinha tecto porque, doutra forma, ao subir, Jesus teria batido com a cabeça.» Houve quem não gostasse da piada pouco respeitosa pelo sagrado, mas houve também alguém que a considerou uma oportunidade para aprofundar o significado do texto dos Actos.
À primeira vista, o relato da Ascensão escorre fluído, mas, quando se tomam em consideração todos os pormenores, começa- -se a experimentar um certo embaraço: parece algo inverosímil que Jesus se tenha comportado como um astronauta que se levanta do chão, sobe para o céu e desaparece entre as nuvens; e há também algumas incongruências difíceis de explicar.
No final do seu Evangelho, Lucas – o mesmo autor dos Actos – afirma que o Ressuscitado conduziu os seus discípulos em direcção a Betânia e «erguendo as mãos, abençoou-os. Enquanto os abençoava, separou-se deles e elevava-se ao Céu. E eles, depois de se terem prostrado diante dele, voltaram para Jerusalém com grande alegria» (Lc 24, 50-53). Deixemos de lado a estranha referência à «grande alegria» (quem de nós fica contente quando um amigo parte?) e o desacordo sobre a localidade (Betânia está fora do percurso em relação ao Monte das Oliveiras). O que surpreende é a evidente divergência sobre a data: segundo Lucas 24, a Ascensão acontece no próprio dia de Páscoa, enquanto que nos Actos é colocada quarenta dias depois (Act 1, 3). É de admirar que o mesmo autor forneça duas informações contrastantes.
Se considerarmos válida a segunda versão (a dos quarenta dias), é espontâneo perguntar-se: o que fez Jesus durante todo este tempo? Não tinha Ele no Calvário prometido ao ladrão: Hoje estarás comigo no Paraíso? Por que motivo não foi imediatamente?
As dificuldades enumeradas são suficientes para nos porem em guarda: talvez a intenção de Lucas não seja a de nos informar acerca de onde, como e quando Jesus subiu ao Céu. Talvez (aliás, sem talvez!) a sua preocupação seja outra: quer responder a problemas e esclarecer dúvidas surgidas nas suas comunidades, quer iluminar os cristãos do seu tempo sobre o mistério inefável da Páscoa. Por isso, como artista da pena que é, compõe uma página de teologia utilizando um género literário e imagens bem compreensíveis para os seus contemporâneos. O primeiro passo a dar é o de compreender a linguagem utilizada.
No tempo de Jesus, a expectativa do reino de Deus é muito viva e os escritores apocalípticos anunciam-na como iminente. Eles esperam: um dilúvio de fogo purificador do Céu, a Ressurreição dos justos e o início de um mundo novo. Também na mente de alguns discípulos se cria um clima de exaltação, alimentada por algumas expressões de Jesus que podem facilmente ser mal compreendidas: «Em verdade vos digo: não acabareis de percorrer as cidades de Israel, antes de vir o Filho do Homem» (Mt 10, 23); «Em verdade vos digo: alguns dos que estão aqui presentes não hão-de experimentar a morte antes de terem visto chegar o Filho do Homem com o seu Reino» (Mt 16, 28).
Com a morte do Mestre, porém, todas as esperanças se desfazem: «Nós esperávamos que fosse Ele quem viria redimir Israel!» (Lc 24, 21).
A Ressurreição desperta as expectativas: difunde-se entre os discípulos a convicção de um imediato retorno de Cristo. Alguns fanáticos, baseando-se em revelações presumíveis, começam até a anunciar a sua data. Em todas as comunidades repete-se a invocação: «Maranatha», vem Senhor!
Os anos passam, mas o Senhor não vem. Muitos começam a ironizar: «Cristo prometeu voltar. Em que fica a promessa da sua vinda? Desde que os pais morreram, tudo continua na mesma, como desde o princípio do mundo» (2Pd 3, 4).
Lucas escreve nesta situação de crise. Dá-se conta de que um equívoco está na origem da violenta desilusão dos cristãos: a Ressurreição de Jesus assinalou, sem dúvida, o início do Reino de Deus, mas não a conclusão da história.
A construção do mundo novo iniciou-se apenas, ela exigirá muito tempo e muito empenho por parte dos discípulos.
Como corrigir as falsas expectativas? Lucas introduz na primeira página do livro dos Actos um diálogo entre Jesus e os Apóstolos.
Consideremos a pergunta que estes colocam: Senhor, é agora que vais restaurar o reino de Israel? (v. 6). É a mesma que, no final do século I, todos os cristãos gostariam de dirigir ao Mestre. A resposta do Ressuscitado, mais do que para os Doze, é dirigida aos membros das comunidades de Lucas: deixem de dissertar acerca dos tempos e momentos do fim do mundo, que são conhecidos apenas pelo Pai. Empenhem-se mas é em realizar a missão que vos foi confiada: ser minhas testemunhas «em Jerusalém e em toda a Judeia e na Samaria, até aos confins da terra» (vv. 7-8)!
A este diálogo segue-se a cena da Ascensão (vv. 9-11).
Jesus e os discípulos estão sentados à mesa (Act 1, 4), portanto, em casa. Por que é que não se despediram ali, depois de terem jantado? Que necessidade havia de irem ao Monte das Oliveiras? E os outros pormenores: a nuvem, os olhares dirigidos ao céu, os dois homens vestidos de branco são anotações de crónica ou artifícios literários?
No Antigo Testamento há um relato que se assemelha muito ao nosso, trata-se do arrebatamento de Elias (2Rs 2, 9-15).
Um dia, este grande profeta encontra-se junto ao rio Jordão com o seu discípulo Eliseu. Este, sabendo que o mestre está para o deixar, ousa pedir-lhe como herança dois terços do seu espírito. Elias promete-lhos, mas com uma condição: se me vires quando for arrebatado para longe de ti. De repente, aparece um carro com cavalos de fogo e, enquanto Eliseu olha para o céu, Elias é arrebatado num turbilhão. A partir daquele momento, Eliseu recebe o espírito do mestre e está habilitado a continuar a sua missão neste mundo. O livro dos Reis relatará, depois, as obras de Eliseu: são as mesmas que fez Elias.
É fácil relevar os elementos comuns com o relato dos Actos e então a conclusão não pode ser senão esta: Lucas serviu-se de uma cenografia grandiosa e solene do arrebatamento de Elias para exprimir uma realidade que não pode ser verificada com os sentidos nem descrita adequadamente com palavras: a Páscoa de Jesus, a sua Ressurreição e a sua entrada na glória do Pai.
A nuvem indica no Antigo Testamento a presença de Deus num certo lugar (Ex 13, 22). Lucas utiliza-a para afirmar que Jesus, o derrotado, a pedra rejeitada pelos construtores, aquele que os inimigos queriam que ficasse para sempre prisioneiro da morte, foi, pelo contrário, acolhido por Deus e proclamado Senhor. Os dois homens vestidos de branco são os mesmos que aparecem junto ao sepulcro no dia de Páscoa (Lc 24, 4). A cor branca representa, segundo a simbologia bíblica, o mundo de Deus. As palavras postas na boca dos dois homens são a explicação dada por Deus aos acontecimentos da Páscoa: Jesus, o Servo fiel, morto pelos homens, foi glorificado. As palavras deles são verdadeiras (sendo dois, são testemunhas dignas de fé).
Por fim: o olhar dirigido ao céu. Como Eliseu, também os Apóstolos e os cristãos do tempo de Lucas ficam a contemplar o Mestre que se afasta. O seu olhar indica a esperança de um seu regresso imediato, o desejo de que, depois de um breve intervalo, Ele retome a obra interrompida. Mas a voz do céu esclarece: não será Ele a completá-la, sereis vós. Fá-lo-eis, estais habilitados para o fazer porque passaste com Ele quarenta dias (na linguagem do judaísmo era o tempo necessário para a preparação do discípulo) e recebeste o Espírito.
Para os Apóstolos, como para Eliseu, a imagem do «arrebatamento para o Céu» indica a passagem do testemunho.
Já no tempo de Lucas havia cristãos que “olhavam para o céu”, isto é, que consideravam a religião como uma evasão, não como um estímulo a empenharem-se concretamente para melhorarem a vida das pessoas. A esses, Deus diz: «deixem de olhar para o céu», é na terra que deveis dar prova da autenticidade da vossa fé. Jesus voltará, sim, mas esta esperança não deve ser razão para não querermos ver os problemas deste mundo. Felizes serão, de facto, aqueles servos que o Senhor, voltando, encontrar empenhados no trabalho para os irmãos (Lc 12, 37).
Então Jesus subiu ao Céu?
Sem dúvida, mas dizer que subiu ao Céu equivale a dizer: ressuscitou, foi glorificado, entrou na glória de Deus. O seu corpo, é verdade, foi posto no sepulcro, mas Deus não precisou dos átomos do seu cadáver para lhe dar aquele «corpo de ressuscitado» que Paulo chama: «Corpo espiritual» (1Cor 15, 35-50).
Quarenta dias depois da Páscoa não se verificou nenhuma deslocação no espaço, nenhum «arrebatamento» do Monte das Oliveiras em direcção ao Céu. A Ascensão aconteceu no mesmo momento da morte, mesmo se os discípulos começaram a entender e a acreditar só a partir do «terceiro dia».
O relato de Lucas é uma página de teologia, não a reportagem de um cronista. Nesta página, ele quer dizer-nos que Jesus foi o primeiro a atravessar o «véu do templo» que separava o mundo dos homens do de Deus e mostrou como tudo aquilo que acontece na terra, sucessos e desventuras, injustiças, sofrimentos e até mesmo os factos mais absurdos, como uma morte ignominiosa, não escapam ao projecto de Deus.
A Ascensão de Jesus é tudo isto. Então não nos devemos admirar que tenha sido saudada pelos Apóstolos com grande alegria (Lc 24, 52).
SEGUNDA LEITURAPaulo pede a Deus a sabedoria para os seus cristãos. Não se trata de uma sabedoria humana, mas da inteligência para compreender o mistério da Igreja. Ele pede a Deus que ilumine os olhos dos seus corações para que compreendam quão grande é a esperança à qual são chamados.
A primeira leitura convidava os cristãos a não descuidar os deveres concretos deste mundo. A segunda completa este pensamento e recomenda aos cristãos que não esqueçam que a sua vida não está fechada no horizonte deste mundo, porque, mesmo se empe-nhados nas actividades desta vida, eles estão sempre à espera que Cristo volte para os levar definitivamente consigo.
EVANGELHOMateus não descreve a Ascensão de Jesus da mesma forma que o fazem os Actos dos Apóstolos, mas, servindo-se de imagens diferentes, propõe a mesma mensagem.
Ao contrário de Lucas e de João, ele coloca o encontro com o Ressuscitado não em Jerusalém, mas na Galileia. Esta ambientação geográfica tem um valor teológico: o evangelista quer afirmar que a missão dos Apóstolos tem início onde começara a do seu Mestre.
A Galileia era uma região desprezada. Devido às frequentes invasões vindas de norte e de leste, era habitada por uma população heterogénea, derivada de uma mistura de raças. Isaías designa-a como «terra de sombras» (Is 9, 1) e os judeus ortodoxos olhavam-na com suspeita e desconfiança. A Nicodemos, que timidamente procurava defender Jesus, os fariseus de Jerusalém objectarão: «Investiga e verás que da Galileia não sairá nenhum profeta» (Jo 7, 52).
É precisamente a estes semipagãos – isto quer dizer Mateus – que agora é destinado o Evangelho. Jerusalém, a cidade que re-cusou o messias de Deus, perdeu o seu privilégio de ser o centro espiritual de Israel.
O encontro do Ressuscitado com os discípulos acontece no monte (v. 16).
Comentando o Evangelho do segundo domingo da Quaresma, esclarecemos o significado bíblico do monte: era o lugar das manifestações de Deus; no cimo do monte Ele manifestara-se a Moisés e a Elias.
Mateus utiliza muitas vezes esta imagem: coloca Jesus no monte sempre que Ele ensina ou faz algo particularmente importante.
Se tomarmos em consideração este facto, compreendemos o significado da cena narrada no trecho de hoje: o envio dos discípulos ao mundo é um acontecimento decisivo. Só está habilitado a desempenhar esta missão quem, no monte, fez a experiência do Ressuscitado e assimilou a sua mensagem.
A nota de que «alguns dos Apóstolos ainda duvidavam» (v. 17) é surpreendente. Como podiam ter ainda dúvidas se tinham já encontrado o Ressuscitado em Jerusalém, no dia de Páscoa?
Do ponto de vista da catequese, este pormenor é indicativo. Para Mateus, a comunidade cristã não é composta por gente perfeita, mas por pessoas onde continua a estar presente o bem e o mal, a luz e as trevas. Entre os primeiros discípulos verificamos esta situação: têm fé, mas permanecem ainda dúvidas e incertezas.
É possível acreditar em Cristo e ter dúvidas. O contrário é que é impossível: não pode existir a fé juntamente com a evidência. Não se pode «acreditar» que o Sol existe, porque há a certeza, pode-se ver, são cientificamente verificáveis os efeitos da sua luz e do seu calor. No campo da fé esta evidência é impossível. Como os Apóstolos, também nós temos a convicção profunda da verdade da Ressurreição de Cristo, mas não a podemos demonstrar.
Na segunda parte do trecho (vv. 18-20), dá-se o envio dos Apóstolos a evangelizar o mundo inteiro.
Durante a sua vida pública, Jesus tinha-os mandado anunciar o Reino dos Céus com estas instruções: «Não sigais pelo caminho dos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos. Ide, primeiramente, às ovelhas perdidas da casa de Israel» (Mt 10, 5-6). Depois da Páscoa, a sua missão amplia-se, torna-se universal.
A luz acendera-se na Galileia quando Jesus, tendo deixado Nazaré, fora para Cafarnaum. O povo que estava nas trevas vira uma grande luz; para aqueles que moravam em terras e sombras de morte, surgira uma luz (Mt 4, 16). Agora, a sua luz deve resplandecer em todo o mundo. Como anunciaram os profetas, Israel torna- -se «luz das nações» (Is 42, 6).
O momento é decisivo, e Jesus evoca a sua autoridade: fora enviado pelo Pai a levar a mensagem da salvação; agora Ele confia esta tarefa à comunidade dos discípulos, e por esse motivo lhes dá os seus próprios poderes.
A Igreja é chamada a tornar Cristo presente no mundo. Mediante o Baptismo gera novos filhos, que são inseridos na comunhão de vida da Trindade, do Pai, do Filho e do Espírito. Missão sublime, mas árdua: suscita desânimo e receio em quem é chamado a desempenhá-la.
Qualquer vocação é sempre acompanhada pelo medo do homem e por uma promessa do Senhor que garante: «Não temas, Eu estou contigo.» A Jacob, em viagem para uma terra desconhecida, Deus garante: «Estou contigo e proteger-te-ei para onde quer que vás, não te abandonarei» (Gn 28, 15); A Israel, deportado para a Babilónia, declara: «És precioso aos meus olhos, que te estimo e te amo. Não tenhas medo, que Eu estou contigo» (Is 43, 4-5); a Moisés que objecta: «Quem sou eu para ir ter com o faraó e fazer sair os filhos de Israel do Egipto?», o Senhor responde: «Eu estarei contigo» (Ex 3, 11-12); a Paulo, que em Corinto é tentado a desencorajar-se, o Senhor diz: «Nada temas, porque Eu estou contigo e ninguém te fará mal» (Act 18, 9-10).
A promessa do Ressuscitado aos discípulos, que começam a dar os primeiros, tímidos passos, não podia ser diferente: «Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos» (v. 20). Encerra assim, como iniciara, o Evangelho de Mateus: com a evocação do Emanuel, o Deus connosco – nome com o qual o Messias fora anunciado pelos profetas (Mt 1, 22-23).
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