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  Quinta-feira, 24 de Setembro de 2026 - QUINTA-FEIRA da semana XXV    Orações Terço Via-Sacra Via Lucis
XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM - «Deus Dá o Prémio Conforme os Méritos»: é o Epitáfio no Túmulo do AmorO Banquete da Palavra

Todos conhecemos os termos eucaristia e carisma. Derivam do termo grego charis que significa benevolência, dom gratuito, prenda que dá alegria, felicidade.

É grande a satisfação que podemos experimentar quando nos é entregue o diploma da licenciatura, depois de muitas canseiras e noites insones; mas é imensa a alegria que suscita em nós a simples flor que a pessoa amada nos entrega no momento em que declara o seu amor.

A prenda comunica uma emoção única, porque é sinal de alguém que pensa em nós, que nos ama, que pronuncia com ternura o nosso nome.

A introdução na relação com o Senhor dos critérios da justiça retributiva, da contabilidade, dos prémios e dos castigos, das lisonjas e das ameaças, do registo dos méritos e das transgressões é uma deformação diabólica da fé. Os rabis tinham catalogado os homens em quatro categorias: justos, se observavam toda a lei; ímpios, se prevaleciam as infracções; medíocres, se os méritos e as culpas eram equivalentes; arrependidos, se pediam o perdão dos seus pecados. Com o princípio: «a recompensa só se recebe por uma obra boa» tinham decretado o fim da relação de amor.

O diálogo entre Deus e o homem só se instaura onde há o encontro livre, o dom gratuito, o amor recíproco sem condições. Quem ama não pretende nada, não espera mais nada senão ver a pessoa amada sorrir e alegrar-se.

Na linha dos profetas, os melhores dos rabis diziam ao Senhor: «Nisto se manifesta a tua salvação: Tu tens misericórdia daqueles que não possuem um tesouro de boas obras.» «Tudo o que Tu nos fizeste é graça, pois nas nossas mãos não havia boas obras.» Jesus fez sua esta justiça de Deus.

Para interiorizar a mensagem, repetiremos:
- Eu te dou graças, Senhor, porque me acolhes e me amas assim como sou.



PRIMEIRA LEITURA

Há cinquenta anos que os Israelitas se encontram na Babilónia. Longe da sua terra, sofreram e choraram (Sl 137) e os mais velhos têm ainda nos olhos a cena dramática da cidade santa em chamas, com os soldados de Nabucodonosor que a invadem sedentos de sangue e de violência. Com as lágrimas nos olhos, contaram-na aos seus filhos nascidos no exílio, instilando também neles a esperança e a expectativa da vingança do Senhor.

Tinham aprendido na catequese que Deus é justo: dá o prémio aos bons e o castigo aos maus; por isso estão certos de que Ele há-de pagar na mesma moeda aos inimigos do seu povo. Israel só deve esperar, e verá um dia que o seu Deus não deixa impunes os maus.

Neste contexto histórico e cultural, eis que surge o profeta que pronuncia um oráculo desconcertante: Deus não vê as coisas assim, é preciso mudar este modo de pensar porque é blasfemo atribuir-lhe tais projectos. «Deixe o ímpio – ou seja, o israelita que espera a represália de Deus – o seu caminho e o homem perverso os seus pensamentos» (v. 7).

Antes ainda do afastamento das misérias morais, a conversão pedida pelo profeta requer a correcção da imagem de Deus, concebido de modo demasiado racional, demasiado «à medida do homem». O Senhor confunde todas as projecções ingénuas que o homem faz dele: «Porque os meus pensamentos não são os vossos, nem os vossos caminhos são os meus. Tanto quanto o céu está acima da terra, assim os meus caminhos estão acima dos vossos e acima dos vossos estão os meu pensamentos» (vv. 8-9).

Também o homem sai valorizado desta revelação. Se abandonar o ídolo vingador que criou, a pouco e pouco assimilará os pensamentos e os sentimentos do verdadeiro Deus, e experimentará uma repulsa crescente e salutar pela própria mesquinhez.




SEGUNDA LEITURA

Tendo concluído, no domingo passado, a Carta aos Romanos, teremos agora, nos próximos quatro domingos, um trecho da Carta aos Filipenses.

Paulo tinha chegado a Filipos, uma cidade da Macedónia, no ano de 49, juntamente com Timóteo, Sila e talvez também Lucas. A cidade – um notável centro económico e cultural – era famosa sobretudo pela batalha onde o exército de Octávio e António tinha vencido o de Brutos e Cassio. Os Apóstolos tinham ficado em Filipos apenas alguns dias, conseguindo porém dar início a uma comunidade – a primeira da Europa – organizada ao redor de Lídia, que se tinha convertido e baptizado, juntamente com a sua família, depois de o Senhor lhe ter aberto o coração para aderir às palavras de Paulo (Act 16, 11-15).

Entre o Apóstolo e as comunidades por ele fundadas houve muitas vezes atritos e divergências; mas com os filipenses, pelo contrário, o relacionamento foi sempre idílico, baseado numa amizade sólida e numa genuína e recíproca simpatia, de tal modo que somente deles aceitou ajuda e presentes. «Nenhuma outra igreja – reconhece ele com alegria – esteve em comunhão comigo na permuta de dar e receber, a não ser apenas vós: em Tessalónica e por duas vezes me enviaste socorro para as minhas necessidades» (Fl 4, 16).

Escreveu a carta de Éfeso, num momento difícil em que se encontrava na prisão por causa do Evangelho.

As comunicações entre as duas cidades eram bastante fáceis e rápidas, os contactos frequentes, e as notícias corriam facilmente. Através de um comerciante, de um viajante de passagem ou de um cristão enviado propositadamente, os filipenses souberam das desventuras do Apóstolo e tinham decidido manifestar-lhe a sua amizade e solicitude com um gesto concreto de solidariedade: tinham recolhido dons e encarregado Epafrodito de os levar a Paulo.

Foi depois de ter recebido este testemunho de afecto da parte deles que o Apóstolo escreveu a carta à comunidade de Filipos.

Nela deixa transparecer as emoções mais íntimas, mais doces, mais ternas do seu coração. É comovente a passagem onde recorda a chegada de Epafrodito, «meu irmão, colaborador e companheiro de luta e vosso enviado para me servir nas necessidades» (Fl 2, 25) e as palavras com que o envia de volta a Filipos com a carta: «Recebei-o, portanto, no Senhor, com toda a estima e estimai homens como ele; pois foi por causa da obra de Cristo que esteve perto da morte, arriscando a vida, para vos substituir nos serviços que vos era impossível prestar-me» (Fl 2, 29-30).

Durante muitos anos, Paulo trabalhou pela causa do Evangelho, suportou sofrimentos e superou contrariedades. Em Éfeso, na prisão, começa a sentir o cansaço e o peso dos anos, e cada vez mais pensa no encontro com aquele Jesus a quem dedicou a sua vida. Deseja morrer para estar sempre com Cristo, mas gostaria também de continuar a trabalhar pela causa do Evangelho e de confirmar na fé as comunidades fundadas por ele.

Perante esta alternativa, Paulo reconhece que seria melhor morrer, mas as igrejas precisam ainda dele, e então, com um gesto de generoso abandono à vontade de Deus, diz-se disposto a adiar o encontro com o Senhor para continuar a servir os irmãos.

A famosa afirmação: Para mim viver é Cristo e morrer é lucro (v. 21) é a síntese dos seus sentimentos e da sua fé profunda, e por isso foi escrita no seu túmulo em Roma.




EVANGELHO

Há qualquer coisa de injusto e de irritante no comportamento do proprietário de quem fala a parábola: mostra-se generoso sem tomar em consideração os méritos. Ninguém lhe proibia de fazer beneficência com o seu dinheiro, mas premiar aqueles que tinham aparecido às 17 horas e que, até àquele momento, tinham ficado sem fazer nada, e que talvez até se tivessem entretido a vadiar, está fora de qualquer lógica. Se havia alguém que merecia uma recompensa eram os que tinham trabalhado mais, os operários da primeira hora. Nós estamos habituados a estipular os contratos de acordo com certos princípios que aqui, na parábola, não são respeitados.

É precisamente no modo provocatório de agir do proprietário que está o ensinamento principal do relato. Então, vejamos.

É a época da vindima, e quando a uva está madura tem de ser recolhida e esmagada, tendo em atenção o momento e a lua certa. Para os proprietários dos grandes vinhedos são dias de tensão, precisam de trabalhadores, e aqueles que não têm um trabalho fixo sabem disso e aproveitam a urgência dos patrões para lhe arrancar um contrato favorável. Os mais disponíveis posicionam-se em lugares estratégicos ainda antes do nascer do dia e esperam que passe alguém que lhe dê trabalho. É aqui que começa a nossa parábola.

Ainda antes do nascer do Sol, eis que chega, ofegante, um vinhateiro. Já está a pé há mais de duas horas, programou o trabalho para aquele dia, arrumou as dornas, os cestos, os pipos; cozeu o pão e preparou as azeitonas que irá distribuir aos trabalhadores a meio do dia; nota-se a tensão no rosto e, pelo olhar, os gestos rápidos, quase nervosos, deixa transparecer toda a sua pressa e preocupação. Algumas palavras rápidas para acordar o pagamento e o primeiro grupo, o dos madrugadores, já está na vinha.

O proprietário tem uma grande urgência em concluir o trabalho, e de facto sai mais quatro vezes à procura de trabalhadores: a meio da manhã, ao meio-dia, às três horas da tarde e, quando chama o último grupo, são já as 17 horas, falta apenas uma hora para a conclusão da jorna.

Até aqui não há nada de estranho, é tudo lógico, normal.

Vamos começar a identificar as personagens: o proprietário representa Deus ou Cristo; os trabalhadores são os discípulos que, em momentos diferentes da vida de cada um, respondem ao seu chamamento; a vinha é a comunidade cristã, onde o trabalho nunca falta e deve ser feito com grande urgência. A pressa é a mesma que encontramos na disposição que Jesus dá aos seus enviados: «Não vos detenhais a saudar ninguém pelo caminho» (Lc 10, 4) porque não há tempo a perder. O dia é a imagem da vida de cada pessoa e o entardecer é o momento do justo juízo de Deus.

Chagamos assim ao ponto crucial da parábola. A lei estabelece: «Não explorarás o trabalhador pobre e necessitado, seja um dos teus irmãos ou um dos estrangeiros que estão na tua terra, nas tuas cidades. Dá-lhe o seu salário no próprio dia, antes do pôr-do--sol, porque ele é pobre e espera-o com ansiedade» (Dt 24, 14-15) e, de facto, o proprietário ordena que ponham em fila os trabalhadores e que seja entregue a todos um denário... começando pelos últimos.

Aqui é que está a incorrecção!

Se às escondidas, sem dar na vista, por compaixão, ele tivesse arredondado o salário de quem tinha trabalhado apenas uma hora, não haveria nada a dizer; mas provocar a raiva daqueles que, depois de doze horas de trabalho, têm o rosto queimado pelo Sol e desfigurado pelo cansaço, parece até cruel. Os trabalhadores da primeira hora, que nem sequer conseguem manter-se em pé devido ao cansaço, são obrigados a assistir a uma cena irritante: incrédulos, são obrigados a ver passar os colegas que, com a expressão relaxada e atrevida dos mandriões, recebem um salário imerecido.

É neste comportamento surpreendente e desconcertante do proprietário que deve ser procurada a mensagem da parábola.

Com o trabalhadores da primeira hora ele tinha combinado um denário, com os outros o que for justo, com os últimos não tinha combinado nada.

A incompreensão nasceu do facto de ser pouco claro aquilo que o proprietário considerava como justo. Os trabalhadores entenderam-no com base nos seus próprios critérios de juízo, e estavam convencidos que ele iria ter em consideração os seus méritos; pelo contrário, o proprietário seguia a sua justiça, e distribuiu os seus bens de forma completamente livre e gratuita. Não enganou ninguém, decidiu simplesmente não tomar em consideração os méritos; deu a todos segundo as necessidades e, naturalmente, os primeiros a ser beneficiados foram os últimos, os mais pobres (v. 16). Esta é a surpresa de Deus, este é o seu estranho modo de conceber e praticar a justiça.

A parábola é a denúncia mais clara e provocatória que se possa imaginar da religião dos méritos inculcada pelos guias espirituais de Israel (e apoiada ainda hoje por muitos).

O povo, catequizado pela casta sacerdotal – esquecido do Deus bom, pai, esposo e amigo fiel anunciado pelos profetas –, estava convencido de que o Senhor era um legislador e um juiz, e por esse motivo a relação com Ele não podia ser outra senão a de servos para com o patrão. Os rabis ensinavam: «Quem cumpre um preceito conquista um advogado, quem comete uma transgressão ganha um acusador. Todos os juízos de Deus são feitos medida a medida» e completavam as suas catequeses falando de livros guardados no céu onde eram cuidadosamente anotadas as obras meritórias e as transgressões.

Segundo esta lógica, Deus não podia fazer nada gratuitamente; para obter a sua bênção era preciso ganhá-la. E quando se levantava a objecção: «a Bíblia afirma que Abraão foi chamado por Deus quando ainda era pagão, não era ainda um justo, portanto a sua vocação era um dom absolutamente gratuito», os rabis respondiam: «mesmo que isso não seja afirmado explicitamente, Abraão fez com certeza obras boas, mereceu a sua vocação!»

Com a sua parábola, Jesus cancela, para sempre, este modo farisaico de relacionamento com Deus. Não se compra o amor do Senhor, não se conquista, não pode ser avaliado com base em obras boas, mas é recebido gratuitamente e proporcionalmente às necessidades. São os famintos que Deus enche de bens, e os ricos quem despede de mãos vazias (Lc 1, 53).

Ele nunca se cansa de vir ao encontro do homem, mesmo quando este falta a todos os encontros marcados; Ele não paga segundo os méritos; ninguém se pode sentir em crédito para com Ele (Lc 18, 9-14). Para Deus, todos são crianças: dirigem o olhar ao Pai e dele esperam tudo.

A religião dos méritos nasce da convicção de que entrar na vinha do Senhor – ou seja, no Reino de Deus – equivale a tomar sobre si uma grande canseira, a de cumprir mandamentos e preceitos que nem sempre parecem justos. Então surge a questão: como é possível que aquela pessoa que cumpre escrupulosamente a lei de Deus seja beneficiada da mesma forma que a outra que a descurou? E quem foi tocado pelo chamamento de Deus no último momento, quem se salvou «à tangente», por que é que deve tomar parte na «herança do Céu» da mesma forma que os servos que foram fiéis toda a vida?

Muitos «justos» experimentam uma inveja inconfessável em relação a quem, convertendo-se no último momento, teve a sorte de «trabalhar menos», de gozar mais a vida. Este é o erro: pensar que a alegria consiste em estar longe de Deus, e que a fidelidade à sua palavra mereça um prémio.

Um exemplo poderá ajudar a entender o equívoco presente neste modo de pensar.

Uma pessoa começa desde pequena a estudar música, durante muitas horas por dia; outra decide, aos setenta anos, quando já perdeu o interesse por tudo o resto, aprender a tocar piano, e fá-lo com pouco entusiasmo. Que «prémio» esperam estas duas pessoas? Simplesmente este: a alegria de apreciar a música. E será apreciada de forma diferente por cada uma delas: quem começou antes tem mais tempo para saborear o prazer de executar e ouvir trechos musicais, a sua alegria será mais intensa e mais profunda.

Felizes aqueles servos que são os primeiros a chegar à «vinha do Senhor»! Trabalharam, sem dúvida estão fatigados, mas gozaram «logo desde a manhã» da presença do Senhor. Os trabalhadores da primeira hora representam aqueles que passaram todos os dias da sua vida na intimidade com Deus e escutando a sua palavra. Os outros, que se apresentaram sempre atrasados ao encontro, que nunca estavam presentes quando o Senhor vinha chamá-los, perderam todas as oportunidades que lhes eram oferecidas.

Quem atrasa a entrada no Reino de Deus não faz zangar o Senhor, e Ele não castiga por isso. Ele sofre, sem dúvida, porque quer envolver o homem no seu projecto de amor e fazê-lo sentir-se feliz. As indecisões, as perplexidades, as hesitações em abandonar-
-se a Ele são momentos de alegria que se perdem. Cada instante que a esposa passa sem o esposo é um momento de amor desperdiçado.

Com esta parábola, o evangelista dirigia-se a cristãos embebidos da mentalidade farisaica, para além de querer acautelar os discípulos do perigo da competição dentro da comunidade. Ninguém pode pensar que é superior aos outros, ninguém se pode sentir um veterano porque se converteu primeiro, porque pratica o Evangelho de forma mais fiel. Ninguém é proprietário da «vinha», são todos trabalhadores, são todos irmãos.

A parábola não acaba. Depois das palavras do proprietário, como reagiram aqueles que murmuravam? Terão aceitado? Terão continuado a resmungar? Terão respondido com insultos? Terão atirado com o dinheiro à cara do vinhateiro? Terão jurado nunca mais trabalhar para ele?

A reacção que atribuirmos aos trabalhadores da parábola espelha a nossa reacção perante a bondade e a generosidade de Deus. Na sua vinha trabalha-se gratuitamente, não se trabalha para conquistar um lugar melhor no Paraíso, não se faz o bem ao irmão para obter um prémio. Seria o pior dos egoísmos: servir-se do pobre e do necessitado para acumular méritos.

Fonte: O Banquete da Palavra / Fernando Armellini : Paulinas Editora

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Última actualização: 2010-12-01 00:00:00

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