II DOMINGO DA PÁSCOA - Alegraram-se ao Verem o Senhor A melhor roupa, a que se veste para ir à igreja, é chamada na linguagem popular portuguesa: «Roupa para ir ver Deus». Esta expressão nasce da convicção de que, ao domingo, a comunidade em festa reúne-se para «ver o Senhor».
É um dia de alegria porque, como na Páscoa e «oito dias depois» (Jo 20, 19.26), o Ressuscitado torna-se de novo presente no meio dos discípulos reunidos, aquece os corações abrindo-os à compreensão da Escrituras e, «ao partir do pão», abre-lhes os olhos e dá-se a conhecer (Lc 24, 31-32).
Os evangelistas mostram pouco interesse pela precisão cronológica e, no entanto, estão todos de acordo acerca de uma data: foi no «primeiro dia da semana» que os discípulos viram o Senhor, e por este motivo as comunidades cristãs escolheram este dia para o dedicar à leitura da palavra (Act 20, 7-12), à celebração da Ceia do Senhor (1Cor 11, 20.26), à oração e à partilha dos bens.
Sempre no primeiro dia da semana, cada um punha de lado aquilo que tinha conseguido poupar (1Cor 16, 2) e apresentava o seu dom à comunidade, que distribuía as ofertas pelos membros mais necessitados ou as enviava às comunidades mais pobres.
Um dos testemunhos mais antigos vem de um escritor pagão, Plínio, o Jovem, que, por volta do ano 112, escreve ao imperador Trajano: os cristãos «têm por hábito reunir-se, num determinado dia, antes do amanhecer, e cantarem hinos a Cristo como a um Deus.»
Era o dia do Senhor – o domingo (Ap 1, 10) – o dia em que cada comunidade celebrava, com o rito, a sua fé e a sua vida.
Para interiorizar a mensagem, repetiremos: - Como crianças recém-nascidas, a mãe Igreja alimenta os seus filhos, não com visões, mas com o leite da Palavra.
PRIMEIRA LEITURAA primeira leitura de todos os domingos do tempo pascal é tirada dos Actos dos Apóstolos, o livro que narra a difusão do Evangelho no mundo e o nascimento das primeiras comunidades cristãs.
O trecho de hoje apresenta um quadro encantador da vida da comunidade de Jerusalém, nascida ao redor de Maria e dos Apóstolos, depois do Pentecostes. Constitui o ponto de referência de todas as comunidades cristãs. Os pilares em que assenta são enumerados nos dois primeiros versículos da leitura (vv. 42-43): fidelidade à catequese, comunhão dos bens, celebração semanal da Eucaristia (chamada «fracção do pão»), oração em comum. Vejamos detalhadamente cada uma destas características.
A catequese (quotidiana) antes de mais.
Os Doze não se comportam como os rabis: não se limitam a repetir as interpretações dos antigos. Proclamam que chegaram os últimos tempos, mostram como as Escrituras e as profecias se cumpriram em Jesus de Nazaré (Act 4, 33), comunicam a luz que receberam na Páscoa para que todos possam compreender o significado da morte escandalosa do seu Mestre.
Também hoje a leitura da Palavra é o único e sólido fundamento sobre o qual se deve apoiar a fé da comunidade (Rm 10, 14-17). As emoções religiosas, as sensações, as «revelações» pessoais não são senão frágeis paliativos, alternativas delusórias.
A comunhão dos bens.
Em muitos campos da moral, os cristãos seguem princípios e fazem opções diferentes das que faz quem não acredita, mas quando se trata de administrar os bens comportam-se normalmente como todas as outras pessoas: mercadejam, negoceiam, acumulam, como se a Ressurreição de Cristo nada tivesse a ver com a gestão económica.
Quem pensa e age deste modo fica certamente admirado com a mudança radical que se observa na comunidade de Jerusalém, a partir da Páscoa: os crentes possuem tudo em comum (Act 2, 44), ninguém chama seu ao que lhe pertence (Act 4, 32), tudo é distribuído de acordo com a necessidade de cada um (Act 2, 45; 4, 35). Não se diz que são mais generosos do que os outros, que dão mais esmolas, mas que renunciaram a todos os seus bens.
Não são desprezadas as realidades deste mundo, mas é proposta a renúncia voluntária à utilização egoísta daquilo que se possui.
O ideal do cristão não é a indigência, mas um mundo onde «não haja ninguém necessitado» (Act 4, 34). Quem acredita que Cristo ressuscitou não se submete à escravidão do ter. Com a partilha, manifesta a completa disponibilidade de se colocar ao serviço dos irmãos.
A riqueza não é um mal, mas é-o o enriquecimento que deixa os outros em situação de necessidade. A pobreza é um mal, por isso desaparece no Reino de Deus. Na comunidade onde se vive a partilha não pode existir a pobreza. Como explicava Basílio, o Padre da Igreja do século IV: «Se cada um tomasse para si quanto precisa para as suas necessidades, deixando o supérfluo ao indigente, ninguém seria rico e ninguém seria pobre.»
Os cristãos de Jerusalém levavam uma vida radicalmente diferente da que se vivia à sua volta. A alegria, a simplicidade de coração, a caridade que tinham uns para com os outros atraíam a simpatia de todo o povo. As pessoas perguntavam-se: de onde vem o impulso a viver uma forma de vida tão extraordinária? A resposta era: da Ressurreição de Cristo. A vida nova da comunidade era a prova de que Cristo vive.
Há uma experiência que as pessoas de todos os tempos têm o direito de fazer: encontrar uma comunidade de pessoas completamente diferentes, uma comunidade que propõe e vive valores alternativos aos que são oferecidos pelo ambiente circunstante. A experiência da comunidade de Jerusalém não deve ser aplicada à letra nas nossas comunidades, porque não só não seriam resolvidos os problemas como se criariam outros ainda maiores. Porém, o desapego dos bens deste mundo permanece uma condição indispensável para quem acredita no Ressuscitado.
A fracção do pão.
Esta expressão referia-se, originariamente, ao gesto do chefe de família que, no início do jantar, pegava no pão, pronunciava a bênção, partia-o e distribuía-o aos comensais (Act 2, 46). Bem cedo passou a indicar a celebração da Eucaristia (Act 20, 7.11; 1Cor 10, 16), porque o Senhor tinha feito aquele gesto durante a Última Ceia. Nas comunidades primitivas, era precedida por uma refeição comum (1Cor 11, 17-34).
Eucaristia significa acção de graças. Constitui o ápice da vida da comunidade. É o momento em que, perante o pão que é partido – e que evoca o gesto de amor supremo de Deus para com o homem – a comunidade toma consciência de todos os dons que recebeu do Senhor. É invadida por admiração e espanto, e com alegria experimenta a necessidade de o louvar. Poderia usar as palavras do salmista: «Bendito seja o Senhor, que, pelo seu amor, fez maravi-lhas em mim» (Sl 31, 22) ou então exclamar com Jesus: «Bendigo-te, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos» (Lc 10, 21-22).
Uma comunidade que não celebra a Eucaristia, que não pode expressar, perante o sacramento, a sua acção de graças, está privada de um elemento essencial da sua vida. Infelizmente, isto acontece em muitas comunidades cristãs onde, por falta de padres, é distribuído apenas o pão da Palavra. É um alimento substancial, sem dúvida, mas se não for seguida pela «fracção do pão eucarístico» a celebração não atinge o seu vértice.
A oração.
Os primeiros cristãos continuaram a comportar-se como judeus piedosos: frequentavam o templo (Act 2, 46) e recitavam salmos. Mais tarde sentiram a necessidade de traduzir em oração a fé no Ressuscitado e a nova relação com Deus. Assim, servindo-se de expressões colhidas da boca de Jesus, compuseram o Pai Nosso, modelo de todas as orações cristãs, e os primeiros cantos para a celebração do evento pascal.
A oração feita em solidão é bela e necessária; Jesus recomenda- -a: «Quando orares, entra no quarto mais secreto e, fechada a porta, reza em segredo a teu Pai» (Mt 6, 6). Mas a comunidade é «a esposa» que, como acontece com a jovem Israel, é amada «com um amor eterno» (Jr 31, 3) pelo seu Senhor. Por isso sente a necessidade de reunir todos os seus membros para elevar «como uma só voz» o seu canto de amor. No contexto desta oração comunitária é lembrada Maria, pela última vez, no Novo Testamento: «Todos unidos pelo mesmo sentimento, entregavam-se assiduamente à oração, com algumas mulheres, entre as quais Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos de Jesus» (Act 1, 14).
Uma comunidade fundada sobre estes quatro pilares fará prodígios, estabelecerá as bases para uma humanidade nova, será o sinal de que no mundo está presente e opera o Espírito do Ressuscitado.
SEGUNDA LEITURAEstamos em Roma, em finais dos anos 80 d.C., e os cristãos começavam a introduzir o costume de administrar os Baptismos durante a noite de Páscoa. Neste contexto litúrgico, nasce a homilia aos recém-baptizados contida na carta de Pedro, que nos irá acompanhar ao longo dos próximos domingos. A expressão «caríssimos» com a qual o pregador intercala o seu discurso (1Pd 2, 11; 4, 12) deixa transparecer a sua comoção diante dos novos filhos de Deus. No seu comovente discurso não utiliza dissertações teológicas, mas congratula-se com os neófitos (1Pd 2, 7), lembra-lhes que «nasceram de novo, não de uma semente corruptível, mas de um germe incorruptível, por meio da palavra de Deus, viva e perene» (1Pd 1, 23) e expõe as consequências morais que este novo nascimento comporta. A sua homilia – como iremos ver nos próximos domingos – é um suceder- -se ininterrupto de exortações e imperativos.
Este texto foi composto num momento difícil para as comunidades cristãs, principalmente para as da Ásia Menor. Não é que houvesse contra elas uma verdadeira perseguição, mas os cristãos eram facilmente ofendidos, discriminados, condenados injustamente nos tribunais (vv. 6-7).
O autor convida-os a reflectir acerca da vida nova que Deus lhes deu com o Baptismo, vida real, mesmo se não se experimenta com os sentidos (vv. 3-5).
Da certeza de ter recebido um dom que é único florescem a alegria, a serenidade e a paz. Estas disposições interiores animam o cristão, mesmo quando deve enfrentar provações, adversidades, perseguições (vv. 6.8).
Como interpretar, à luz do projecto de Deus, as dificuldades que muitos dos cristãos do final do século i encontram?
O pregador recorre a uma imagem bíblica: o Senhor põe à prova os seus eleitos, prova-os como ouro no crisol (Sb 3, 5-6), fá-los passar através do fogo para os purificar como se faz com a prata (Zc 13, 8-9). De facto, também os metais mais preciosos necessitam de ser libertados das escórias para atingirem o esplendor máximo.
A última parte da leitura introduz a mensagem que será depois desenvolvida no Evangelho: «Sem terdes visto Cristo, vós o amais; sem o ver ainda, acreditais nele» (v. 8). Os neófitos de Roma pertencem à terceira geração de cristãos. Mesmo estando ainda relativamente próximos dos acontecimentos da Páscoa, eles não conheceram pessoalmente Jesus de Nazaré, vivem uma experiência de fé semelhante à nossa: acreditam nas testemunhas do Ressuscitado e encontram o Senhor, como nós, na celebração da Palavra e na «fracção do pão». São bem-aventurados porque, mesmo não tendo visto nem a Ele nem a quem o viu, continuam a acreditar.
EVANGELHOO trecho de hoje está dividido em duas partes, que correspondem às aparições do Ressuscitado. Na primeira (vv. 19-23), Jesus comunica aos discípulos o seu Espírito e com ele dá-lhes o poder de vencerem as forças do mal. É o mesmo trecho que encontraremos e comentaremos no Pentecostes. Na segunda parte (vv. 24- -31), é relatado o famoso episódio de Tomé.
A dúvida deste Apóstolo tornou-se proverbial. A quem manifesta alguma desconfiança é costume dizer-se: «És incrédulo como Tomé!» E, no entanto, se virmos bem, não perece ter feito nada de mal: pedia apenas para ver aquilo que os outros tinham visto. Por que motivo pretender apenas dele uma fé baseada na palavra?
Mas terá sido Tomé o único a ter dúvidas, enquanto os outros discípulos acreditaram de forma fácil e imediata no Ressuscitado? Não parece mesmo nada que as coisas tenham sido assim.
No Evangelho de Marcos, diz-se que Jesus apareceu aos «onze» e censurou-os pela sua incredulidade e dureza de coração, porque não tinham acreditado naqueles que o tinham visto ressuscitado (Mt 16, 14). No Evangelho de Lucas, o Ressuscitado dirige-se aos Apóstolos surpreendidos e assustados e pergunta: «Por que estais perturbados e por que surgem tais dúvidas nos vossos corações?» (Lc 24, 38). Na última página do Evangelho de Mateus diz-se mesmo que, quando Jesus apareceu aos discípulos num monte da Galileia (portanto muito tempo depois das aparições em Jerusalém), alguns ainda duvidavam (28, 17).
Portanto, todos duvidaram, não apenas o pobre Tomé! Então por que motivo o evangelista João parece querer concentrar sobre ele todas as dúvidas que, no entanto, atormentaram também os outros? Procuremos entender.
Quando João escreve (por volta do ano 95 d.C.) Tomé já morreu faz tempos, portanto, o episódio não é certamente referido para pôr em má luz este Apóstolo. Se são postos em relevo os problemas de fé que ele teve, a razão é outra: o evangelista quer responder às interrogações e às objecções que os cristãos da sua comunidade levantam com crescente insistência. Trata-se de cristãos da terceira geração, de pessoas que não viram o Senhor Jesus. Muitos deles não conheceram sequer algum dos Apóstolos. Têm dificuldade em acreditar, debatem-se com muitas dúvidas, gostariam de ver, tocar, verificar se o Senhor verdadeiramente ressuscitou. Perguntam-se: quais são as razões que nos podem induzir a acreditar? É ainda possível para nós fazer a experiência do Ressuscitado? Há provas de que Ele esteja vivo? Por que é que já não aparece? São as perguntas que também hoje nós fazemos.
A estas, Marcos, Lucas e Mateus respondem dizendo que todos os Apóstolos tiveram hesitações. Acreditar no Ressuscitado não foi fácil, imediato. Também para eles o caminho da fé foi longo e fatigante, não obstante Jesus tivesse dado muitos sinais de que estava vivo, de que tinha entrado na glória do Pai.
A resposta de João é diferente. Ele coloca Tomé como símbolo da dificuldade que cada discípulo encontra para chegar a acreditar na Ressurreição de Jesus. É difícil saber por qual razão ele escolheu precisamente este Apóstolo. Talvez porque tenha tido mais dificuldades ou tenha precisado de mais tempo do que os outros para ter fé.
Aquilo que João quer ensinar aos cristãos das suas comunidades (e a nós) é isto: o Ressuscitado possui uma vida que escapa aos nossos sentidos, uma vida que não pode ser tocada com as mãos nem vista com os olhos. Só pode ser alcançada mediante a fé. Isto é válido também para os Apóstolos que, no entanto, fizeram uma experiência única do Ressuscitado.
Não se pode ter fé naquilo que se viu. Não se podem ter demonstrações, provas científicas da ressurreição. Se alguém pretende ver, constatar, tocar então deve renunciar à fé.
Nós dizemos: «Felizes aqueles que viram.» Para Jesus, pelo contrário, felizes são aqueles que não viram. Não porque lhes custe mais acreditar e assim tenham méritos maiores. São felizes porque a sua fé é mais genuína, mais pura, ou melhor, é a única fé pura. Quem vê tem a certeza da evidência, possui a prova incontestável de um facto.
Tomé aparece mais duas vezes no Evangelho de João e nunca – diríamos nós – fica bem visto. Tem sempre dificuldade em entender, equivoca-se, não entende as palavras e as escolhas do Senhor.
Intervém uma primeira vez quando, recebida a notícia da morte de Lázaro, Jesus decide ir à Judeia. Tomé pensa que seguir o Mestre significa perder a vida. Não compreende que Jesus é o Senhor da vida e, desconsolado e desiludido, exclama: «Vamos nós também para morrermos com Ele» (Jo 11, 16).
Durante a Última Ceia, Jesus fala do caminho que está a percorrer, um caminho que passa pela morte para introduzir na vida. Tomé intervém de novo: «Senhor, não sabemos para onde vais, como podemos conhecer o caminho?» (Jo 14, 5). Está cheio de perplexidades, de hesitações e de dúvidas, não consegue aceitar aquilo que não entende. Demonstra-o uma terceira vez no episódio narrado no trecho de hoje.
Parece quase que João se diverte a delinear desta forma a figura de Tomé. Mas no final presta-lhe justiça: põe na sua boca a mais alta, a mais sublime das profissões de fé. Nas suas palavras reflecte-se a conclusão do itinerário de fé dos discípulos.
No início do Evangelho, os primeiros dois Apóstolos dirigem-se a Jesus chamando-lhe Rabi (Jo 1, 38). É o primeiro passo para a compreensão da identidade do Mestre. Não passa muito tempo e André, que já entendeu muito mais, diz a seu irmão Simão: «Encontrámos o Messias» (Jo 1, 41). Natanael intui imediatamente quem tem pela frente e declara a Jesus: «Tu és o Filho de Deus» (Jo 1, 49). Os samaritanos reconhecem-no como o salvador do mundo (Jo 4, 43), o povo como o profeta (Jo 6, 14), o cego de nascença proclama- -o Senhor (Jo 9, 38), Pilatos rei dos Judeus (Jo 19, 19). Mas é Tomé quem diz a última palavra sobre a identidade de Jesus, chama-o: Meu Senhor e meu Deus. Uma expressão que a Bíblia refere a YHWH (Sl 35, 23). Tomé é, portanto, o primeiro a reconhecer a divindade de Cristo, o primeiro que entende o que queria dizer Jesus quando afirmava: «Eu e o Pai somos um» (Jo 10, 30).
A conclusão do trecho (vv. 30-31) apresenta a razão pela qual João escreveu o seu livro: contou os «milagres» – não todos, mas suficientes – por duas razões: para suscitar ou confirmar a fé em Cristo e para que, através desta fé, se chegue à vida.
Jesus não fez estes milagres para impressionar as pessoas que assistiam, antes pelo contrário, teve palavras duras de condena- ção para quem não acreditava sem ver prodígios (Jo 4, 48) e João não os conta com a finalidade de causar admiração aos seus leitores, com a finalidade de «demonstrar» o poder divino que Jesus possuía.
Os milagres não são provas, mas revelações acerca da pessoa de Jesus, da sua natureza e da sua missão. Chega a acreditar de maneira sólida e duradoura quem, a partir do facto material, se eleva à realidade que este indica. Não compreende o milagre quem na distribuição dos pães não entende que Jesus é o pão da vida, ou na cura do cego de nascença não reconhece que Jesus é a luz do mundo, ou na reanimação de Lázaro não vê em Jesus o Senhor da vida.
No epílogo do seu Evangelho, João usa o termo sinais milagrosos em sentido amplo: quer significar toda a revelação da pessoa de Jesus, os seus gestos de misericórdia (as curas, a multiplicação dos pães) e as suas palavras (Jo 12, 37). Quem lê o seu livro e compreende estes sinais encontra pela frente, nítida, a pessoa de Jesus e é convidado a fazer uma escolha. Escolherá a vida quem reconhecer nele o Senhor e lhe der a sua adesão.
E esta é a única prova que é oferecida a quem procura razões para acreditar: o próprio Evangelho. Ali ecoa a palavra de Cristo, ali resplandece a sua pessoa. Não há outras provas para além daquela mesma Palavra.
Para entender, é útil lembrar quanto Jesus diz na parábola do Bom Pastor: «As minhas ovelhas escutam a minha voz» (Jo 10, 4-5.27). Não são precisas aparições! No Evangelho ecoa a voz do Pastor e, para as ovelhas que lhe pertencem, o som da sua voz é suficiente para que o reconheçam e sejam atraídas por Ele.
Mas onde se pode escutar esta voz? Onde ecoa esta palavra? É possível repetir hoje a experiência que os Apóstolos fizeram no dia de Páscoa e «uma semana mais tarde»? Como?
Teremos certamente notado que ambas as aparições acontecem ao domingo. Teremos notado também que aqueles que fazem a experiência do Ressuscitado são os mesmos (...mais um, menos um), que o Senhor se apresenta com as mesmas palavras: «A paz esteja convosco» e que em ambos os encontros Jesus mostra os sinais da sua paixão. Haveria ainda outros pormenores, mas bastam estes quatro para nos ajudarem a responder às perguntas que acabamos de colocar.
Os discípulos estão reunidos em casa. O encontro a que João alude é nitidamente o que acontece no dia do Senhor, aquele em que, de oito em oito dias, toda a comunidade é convocada para a celebração da Eucaristia. Quando todos os crentes estão reunidos, aparece o Ressuscitado. Ele, pela boca do celebrante, saúda os discípulos e deseja, como na tarde do dia de Páscoa e «uma semana mais tarde»: a paz esteja convosco.
Naquele momento, Jesus manifesta-se vivo aos discípulos.
Quem, como Tomé, deserta dos encontros da comunidade, não pode fazer a experiência do Ressuscitado (vv. 24-25), não pode ouvir a sua saudação e a sua Palavra, não pode acolher a sua paz e o seu perdão (vv. 19.26.23), experimentar a sua alegria (v. 20), receber o seu Espírito (v. 22). Quem, no dia do Senhor, fica em casa, nem que seja para rezar sozinho, pode sem dúvida fazer a experiência de Deus, mas não a do Ressuscitado, porque este torna-se presente ali onde a comunidade está reunida.
E quem não encontra o Ressuscitado que faz? Como Tomé, precisará de provas para acreditar, mas provas é aquilo que nunca obterá.
Ao contrário do que se vê representado nos quadros dos artistas, nem sequer Tomé pôs as mãos nas feridas do Senhor. Para além de mais, não se refere que ele tenha tocado o Ressuscitado. Também ele pronunciou a sua profissão de fé depois de ter ouvido a voz do Ressuscitado, junto com os irmãos da comunidade. E a possibilidade de fazer esta experiência é oferecida aos cristãos de todos os tempos... todas as semanas.
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