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Inteligência Espiritual

  Sexta-feira, 4 de Setembro de 2026 - SEXTA-FEIRA da semana XXII    Orações Terço Via-Sacra Via Lucis
XXII DOMINGO DO TEMPO COMUM - Dá a Vida Se Não a Queres PerderO Banquete da Palavra

«Nos dias da angústia» (Sl 77, 3) invocamos o Senhor, porque estamos certos de que é Ele quem «a todos dá a vida, a respiração e tudo mais» (Act 17, 25). Recorremos aos santos, visitamos santuários, beijamos relíquias, fazemos novenas... tudo para termos vida.

As multidões procuravam Jesus, «tentavam retê-lo para que não se afastasse delas» (Lc 4, 42), tocavam-no «pois emanava dele uma força que a todos curava» (Lc 6, 19). Aproximavam-se dele para obter a vida. «Eu vim – tinha declarado – para que tenham vida e a tenham em abundância» (Jo 10, 10).

E, no entanto, na sua proposta há algo de paradoxal, aliás, de absurdo. Para chegar à vida é preciso perdê-la: «Eu ofereço a minha vida, para a retomar depois; ninguém ma tira, mas sou Eu que a ofereço» (Jo 10, 17-18) e justifica a sua escolha comparando-se com a semente: «se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto» (Jo 12, 24).

É preciso mesmo muita fé para pensar que, para ter a vida, seja preciso «não amá-la mais que a morte» (Ap 12, 11). É uma lógica estranha, desconcertante! Deus garante a Abraão uma posteridade numerosa como as estrelas do céu... e pede-lhe em sacrifício o filho Isaac que deveria realizar a promessa. Uma tal prova só pode ser enfrentada por quem acredita firmemente.

Jesus promete ao discípulo introduzi-lo na vida: «quem me segue terá a luz da vida... nunca morrerá... nunca experimentará a morte» (Jo 8, 12.51-52)... e encaminha-se para a cruz, imerge-se nas águas da morte.

Mas há-de «emergir», no dia de Páscoa. Felizes aqueles que tiverem a coragem de o seguir: ser-lhes-á dado o alimento «da árvore da Vida» (Ap 2, 7), ficarão para sempre com Ele (1Ts 4, 17) e verão Deus tal como Ele é (1Jo 3, 2).

Para interiorizar a mensagem, repetiremos:
- Senhor, a quem iremos? Só Tu tens palavras de vida eterna.



PRIMEIRA LEITURA

«Confia ao Senhor o teu destino, confia nele e Ele há-de ajudar-te. Fará brilhar, como luz, a tua justiça» (Sl 37, 5-6). É o que sugere ao seu discípulo um velho sábio que, ao fim de uma vida íntegra, está convencido de que Deus o cumulou de favores e de bênçãos pela sua rectidão.

«Como Deus é bom para Israel, para os que têm o coração puro» (Sl 73, 1) – é a doutrina tradicional de Israel, é a verdade indiscutível da justa retribuição. E, no entanto, perante o desmentido dos factos, muitas vezes incompreensíveis, todos os dogmas da fé parecem afirmações ingénuas, mofas, às vezes até mesmo enganos e provocações.

Na leitura, é apresentada a reacção desesperada de um homem que, perante o absurdo da vida, dirige a Deus uma acusação temerária, quase blasfema: «Tu traíste-me!» É Jeremias, o profeta que, por ter sido fiel à sua missão, sofreu perseguições, desventuras, todo o tipo de desgraças; a certa altura não aguentou mais, e gritou a Deus o seu lamento.

Os factos eram estes: estamos em Jerusalém, nos anos dramáticos que precedem a destruição da cidade e a deportação para a Babilónia. O país está à beira da catástrofe, e o rei Joaquim, um imbele, interessa-se mais pela construção do seu luxuoso palácio do que pela ruína iminente do seu povo; os sacerdotes pregam uma religião vã, ilusória, que se resume a uma fria execução de ritos e cerimónias exteriores aos quais não corresponde a conversão do coração e uma vida conforme às leis de Deus.

É nesta situação que Deus chama Jeremias: «Irás aonde Eu te enviar e dirás tudo o que Eu te mandar.» O profeta assusta-se, é jovem, não sabe falar; mas o Senhor tranquiliza-o: «Não terás medo diante deles, pois Eu estou contigo para te livrar... far-te-ão guerra, mas não hão-de vencer, porque Eu estou contigo para te salvar» (Jr 1, 7-8.19).

Como não acreditar nele? Jeremias aceita, mas começam logo as incompreensões. Surgem contrastes, rebentam conflitos com o rei, com os comandantes do exército, com as autoridades religiosas. Até mesmo o povo, irritado e desiludido, pede que se cale o profeta. Os inimigos declarados já não o suportam, reúnem provas contra ele, mandam-no prender, batem-lhe e conseguem que seja submetido a um processo do qual, por sorte, sairá absolvido.

O pior parece ter passado, mesmo que as tensões, a ansiedade, o desconforto tenham marcado, profundamente, a sua vida e abalado o seu equilíbrio psicológico. É nesta situação que Jeremias levanta a Deus o lamento relatado na leitura de hoje.

Abre-se com uma imagem muito viva, a mais audaz de toda a Bíblia: «Vós me seduzistes, Senhor, e eu deixei-me seduzir» (v. 7). O profeta compara a sua vocação a uma rapariga seduzida, que depois de se ter deixado lisonjear pelas palavras doces de um jovem, e ter cedido às suas propostas, é abandonada ao seu destino. Nada mais lhe resta senão amaldiçoar o momento em que acreditou num falso amor.

É assim que se sente Jeremias: só, contra todos, objecto de escárnio e de violência da parte do povo. Por que é que Deus o chamou para uma missão que está a revelar-se um fracasso? Angustiado, pergunta-se como pôde deixar-se seduzir; podia ter ficado tranquilamente com a sua família, a trabalhar nos campos da pacífica localidade de Anatot.

No seu desespero, exclama: «Não voltarei a falar nele. Não falarei mais em seu nome» (v. 9). É o grito carregado de raiva e amargura do enamorado que procura cortar com o relacionamento atormentado e tempestuoso em que está envolvido.

Porém, como acontece a quem viveu um afecto arrebatador, Jeremias já não consegue libertar-se do Senhor que o seduziu, a paixão arde-lhe no coração como um fogo que não se pode apagar. Não obstante a dor atroz e a desilusão que experimenta, não pode renunciar à sua missão.




SEGUNDA LEITURA

Quanto interessam a Deus as nossas celebrações litúrgicas se não forem acompanhadas de obras de amor? Disseram-no os profetas e di-lo muitas vezes também Jesus: Deus «quer a misericórdia, não o sacrifício» (Mt 9, 13).

As primeiras palavras da leitura recordam-nos que as liturgias solenes do templo foram substituídas por um modo novo de louvar a Deus: o sacrifício da própria vida oferecida pelos irmãos (v. 1). Se as nossas liturgias não celebram uma vida de amor, reduzem-se a um cerimonial vazio, sem conteúdo, são uma exterioridade pura, um formalismo inútil.

Paulo continua a recomendar aos cristãos que não se conformem com «este mundo». Na linguagem do Novo Testamento, esta expressão tem um significado qualitativo. É a mentalidade dominante, é o modo de pensar que toda a gente considera normal, prudente, sensato. Esta lógica penetra facilmente na mente e no coração, é assimilada, e sem mesmo se dar conta, o cristão acaba por pensar como toda a gente e por se adequar à moral corrente. Este mecanismo de integração é enganador e perigoso, é preciso tomar consciência dele e estarmos atentos para não sermos arrastados.

É por este motivo que o Apóstolo pede que se renove a mente, de modo a saber discernir a cada momento qual é o comportamento que agrada a Deus, mesmo que seja incompreensível para os homens.




EVANGELHO

Os Hebreus do tempo de Jesus viviam na expectativa de um mundo melhor, do «século que deve vir», rico de paz e justiça. Baseando-se no capítulo 36 do livro de Ezequiel, os rabis anunciavam, «para os últimos tempos», uma transformação prodigiosa da terra: nos dias do messias – garantiam eles – a Palestina transformar-se-á num jardim, e os jardins tornar-se-ão florestas; a fertilidade do solo será multiplicada por mil, haverá riqueza para todos e abundância de bens, como no período paradisíaco dos inícios.

Também os Apóstolos cultivavam estas esperanças, certos de que a vinda do Reino de Deus estava iminente. Tinham intuído que o seu mestre era o Cristo, o esperado «filho de David»; tinham-no seguido para verem realizados os seus sonhos de glória. A única coisa ainda não definida, segundo eles, era a quem seriam atribuídos os primeiros lugares (Mc 9, 34).

É no contexto destas expectativas que deve ser visto o primeiro dos três anúncios da paixão que se encontram no Evangelho. A meio da sua vida pública, Jesus dá-se conta de ter que corrigir, firmemente, as convicções dos seus discípulos; não quer que o sigam acalentando vãs ilusões. Para evitar equívocos, declara abertamente que não se encaminha para o triunfo, mas que vai a Jerusalém para sofrer muito, para ser morto e para ressuscitar ao terceiro dia (v. 21).

A lógica humana não pode deixar de ficar abalada perante uma tal proposta. Os discípulos não conseguem entender, aprenderam dos escribas que o messias não pode morrer; foi-lhes ensinado que, com a sua vinda, os justos que jazem nos sepulcros ressuscitariam para tomarem parte na alegria do seu Reino; Pedro, em nome de todos, reage (vv. 22-23). Não tem medo dos sacrifícios, um dia dará provas de saber arriscar a vida, se tal for preciso (Jo 18, 10), mas não está disposto a empenhar-se num projecto absurdo, não aceita encaminhar-se por uma estrada que conduz directamente ao fracasso, e gostaria que também Jesus se desse conta disso e mudasse de ideias.

A cena seguinte é significativa e muito realista. Pedro toma o Mestre à parte, como que para o encorajar num momento de desconforto, como se o quisesse ajudar a entender que, num momento de desorientação, acontece a qualquer pessoa deixar escapar uma frase infeliz.

A reacção de Jesus à tentativa de o afastar do seu caminho é dura, quase de irritação: «Vai-te daqui, Satanás» - diz o nosso texto, mas a tradução não é exacta. Jesus não pretende afastar Pedro, mas colocá-lo no caminho certo. «Vai atrás de mim» – diz-lhe – segue os meus passos, não queiras preceder-me, como quem pretende indicar o caminho; este já foi traçado pelo Pai, e tu, Pedro, fazes uma proposta que vem da lógica terrena, das astúcias humanas, que são loucura aos olhos de Deus.

Pedro não comete um erro banal, ele move-se na direcção oposta à do Senhor, comporta-se exactamente como Satanás que tentara convencer Jesus a aspirar ao domínio, à conquista do poder. Conduzira-o a um monte muito alto, e mostrara-lhe todos os reinos deste mundo com a sua glória, dizendo-lhe: «tudo isto te darei se, prostrado, me adorares»; Jesus reagira dizendo-lhe: «Vai-te, Satanás» (Mt 4, 8-10). Agora, perante a mesma tentação – avançada por Pedro – não pode senão responder com a mesma dureza.

A cena descrita no Evangelho de hoje forma um díptico com a do domingo passado. Simão tinha sido indicado por Jesus como a pedra viva da Igreja porque tinha acolhido a revelação do Pai, tinha aceitado o seu desígnio de salvação, tinha professado a sua fé no Filho do Deus vivo. Agora torna-se pedra de escândalo porque se deixa levar por raciocínios humanos: desejo de glória, de sucesso, de honrarias, e, por isso, constitui um obstáculo no caminho do Mestre e dos discípulos.

Depois de ter admoestado Pedro, Jesus dirige-se a todos (vv. 24-27) e expõe de forma inequívoca as suas exigências. Não há nenhuma tentativa de mitigar, de as tornar mais aceitáveis! Se o mestre escolheu dar a vida e se «o discípulo não está acima do mestre» (Mt 10, 24), então o caminho terá necessariamente que ser o mesmo.

Três condições caracterizam a radicalidade de uma escolha que não admite esperas nem hesitações: «Renuncia a ti mesmo, toma a tua cruz, segue-me.»

Renuncia a ti mesmo significa: deixa de pensar em ti. É a completa inversão dos princípios que neste mundo regulam as relações entre as pessoas, é a recusa daqueles estímulos que todos consideram positivos porque levam à acção: a procura do próprio interesse, a vontade de obter gratificações, reconhecimentos, vantagens. Até mesmo nos gestos de amor mais puros se nota, por vezes, uma forma velada de egoísmo e de ambição.

O discípulo de Cristo é chamado, antes de mais, a renunciar a qualquer interesse pessoal, mesmo do ponto de vista espiritual; não é que faça o bem para acumular méritos no Céu, para subir um degrau no próprio progresso espiritual; ele age a pensar apenas no irmão. Não toma em consideração quanto de positivo pode acontecer a si mesmo devido às boas acções que faz. Ama gratuitamente, sem procurar o ganho, como faz o Pai.

A segunda condição, toma a tua cruz, não se refere à necessidade de suportar pacientemente as pequenas ou grandes tribulações da vida, e, ainda menos, a uma exaltação da dor como meio para agradar a Deus. O cristão não procura o sofrimento, mas o amor.

A cruz é o sinal do amor e do dom total. Levá-la no seguimento de Cristo significa seguir o caminho que Ele percorreu: dar a vida pelos mesmos ideais; enfrentar, se for preciso, a perseguição e a morte; mas permanecer fiéis ao Evangelho. «Toma a cruz» quem se sacrifica a si mesmo para fazer o bem, para tornar feliz alguém.

A terceira condição, segue-me, não significa «toma-me como modelo», mas partilha a minha escolha, toma parte no meu projecto, aposta a tua vida no amor ao homem; comigo.

 

Nos versículos conclusivos (vv. 25-27) são apresentadas três razões com as quais Jesus procura convencer o discípulo a acolher as três condições difíceis que acabou de expor.

A primeira é: quem dá a vida, na realidade, não a perde, mas ganha-a (v. 25). Quem guarda o grão de trigo, que o usa para si mesmo, quem o esconde, perde-o; só quem tem a coragem de o perder, deitando-o à terra, o «conserva», o «recupera». Acontece também assim com a vida: para a «ganhar» é preciso «perdê-la», é necessário gastá-la para os irmãos.

A segunda razão (v. 26): a vida deste mundo passa rapidamente, é transitória, frágil, precária; não vale a pena agarrar-se desesperadamente a ela como se fosse eterna. Ecoam aqui as numerosas reflexões sapienciais sobre a caducidade da vida: «De poucos palmos fizeste os meus dias; diante de ti a minha existência é como nada; o homem não é mais do que um sopro. Ele passa como simples sombra. É em vão que se agita: amontoa riquezas e não sabe para quem ficam» (Sl 39, 6-7).

A terceira razão (v. 27): a recompensa final. Aparece frequentemente no Evangelho de Mateus a cena do juízo, não como uma ameaça futura, mas como indicação das escolhas sapientes que devem ser feitas no presente. O que se poderá apresentar a Deus no final da vida? Certamente não será o dinheiro acumulado, os prazeres que se gozaram, os reconhecimentos, a carreira. No fim, o Senhor não olhará aos títulos honoríficos que conseguimos obter para pôr antes do nome, mas às obras de amor que estarão depois do nome.

Quando se apagarem as luzes que encandearam a cena deste mundo, quando se extinguir o brilho enganador dos ídolos que encantaram e seduziram tanta gente, então brilhará apenas a luz de Deus e será possível ver o verdadeiro valor da vida de cada um.

Fonte: O Banquete da Palavra / Fernando Armellini : Paulinas Editora

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Liturgia de hoje
Leitura I:
1 Cor 4, 1-5
Salmo:
Salmo 36 (37), 3-4.5-6.27-28.39-40ac (R. 39a)
Evangelho:
Lc 5, 33-39
Liturgia das Horas:
Sexta-feira II
Terço do Rosário:
Mistérios Dolorosos

 

   
 


Última actualização: 2010-12-01 00:00:00

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