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Inteligência Espiritual

  Sexta-feira, 14 de Agosto de 2026 - S. Maximiliano Maria Kolbe, presbítero e mártir    Orações Terço Via-Sacra Via Lucis
XIX DOMINGO DO TEMPO COMUM - É Nos Momentos de Crise Que a Fé AmadureceO Banquete da Palavra

Tensões, conflitos, incompreensões acompanharam sempre as relações Igreja/mundo, mas tornaram-se mais evidentes com o advento do empirismo e do racionalismo, que caracterizaram o pensamento dos séculos XVII e XVIII. A visão puramente naturalista do mundo, bem como a confiança incondicional na razão, pareceram minar os fundamentos da própria fé e do sobrenatural. As pesquisas históricas e arqueológicas do século XIX demonstraram as incongruências evidentes ligadas à interpretação tradicional da Bíblia.

Ditada pela suspeita e pelo medo, a resposta imediata dos crentes não foi serena, e o movimento de purificação das ideias, da linguagem e das práticas religiosas sofreu atrasos, paragens, repensamentos e involuções. Hoje, já se podem evidenciar as grandes mudanças que, estimuladas pelas provocações seculares, se realizaram, sobretudo, após o Concílio Vaticano II. Do estudo e da meditação da palavra de Deus, finalmente na mão dos cristãos, emerge e é dada ao mundo, não obstante algumas contradições, uma imagem de Deus liberta de categorias arcaicas, um novo rosto do homem, uma Igreja mais evangélica e a proposta de uma sociedade baseada em valores autênticos.

Já no tempo do profeta Elias tinha acontecido algo de semelhante, como nos irá relatar a primeira leitura. Uma mudança de mentalidade ainda maior foi pedida por Jesus aos seus discípulos, como veremos no trecho evangélico. O caminho da conversão não está ainda concluído. Não só pelos sinais dos tempos, mas também pelas críticas severas dos não-crentes, o Espírito convida os cristãos a projectarem o olhar, a mente e o coração para lá dos horizontes limitados e mesquinhos nos quais o receio de crescer os mantém prisioneiros.

Para interiorizar a mensagem, repetiremos:
- Mesmo se tiver que atravessar um vale tenebroso, não tenho receio, porque Tu, Senhor, estás comigo.



PRIMEIRA LEITURA

Estamos na primeira metade do século IX a.C., quando Omeri, um general hábil e resoluto, toma o poder com uma revolta. O livro dos Reis recorda-o de forma apressada – dedica-lhe apenas seis versículos (1Rs 16, 23-28) –, mas os acontecimentos políticos, sociais e sobretudo religiosos que se deram durante os onze anos do seu reinado marcaram profundamente a história de Israel. Omeri construiu uma nova capital no monte da Samaria, introduziu novas técnicas agrícolas, incentivou o comércio, favoreceu a cultura, reforçou o exército. Em pouco tempo conseguiu fazer de Israel uma nação rica e poderosa.

Para consolidar as alianças com os reinos mais próximos, o rei recorreu sobretudo aos casamentos. Destes, houve um com consequências dramáticas: o do seu filho Acab com a intriguista, ambiciosa e tão fascinante quanto pérfida Jezabel, filha de Etbaal, o rei de Sídon.

Foi o início da apostasia do Senhor, porque a fascinante princesa estrangeira pretendeu imediatamente que em Israel fossem adorados Baal e Achera, as divindades da sua terra. Fez construir para elas um templo esplêndido na Samaria e impôs o seu culto como religião oficial do reino.

Neste período de tensões surgiu «o profeta Elias, impetuoso como o fogo; as suas palavras eram ardentes como um facho» (Eclo 48, 1). Vinha de Guilead, a terra para lá do Jordão, nos limites do deserto, «era um homem vestido de peles, com um cinto de couro em volta dos rins» (2Rs 1, 8) e levava uma vida austera. Deu-se logo conta da «colonização» das mentes e das consciências levada a cabo pela rainha, e interveio para denunciar o perigo da corrupção religiosa e moral. Mas, não obstante os seus esforços e a sua coragem, não conseguiu convencer o seu povo a permanecer fiel ao Senhor. No limite do desespero, um dia desabafou com o seu Deus: «Os filhos de Israel abandonaram a tua aliança, derrubaram os teus altares e mataram os teus profetas; só eu escapei, mas agora querem matar-me também a mim» (1Rs 19, 14).

É aqui que tem início a nossa leitura.

Para fugir a Jezabel, que o quer matar, Elias encaminha-se para o deserto e vai em direcção ao monte de Deus, o Horeb, o mesmo monte Sinai onde, quatrocentos anos antes, Moisés falara com o Senhor. Quando lá chega e entra numa caverna para passar a noite, o Senhor convida-o a sair e a aguardar a sua manifestação.

E eis que se desencadeia um vento forte e impetuoso, que quebra os rochedos; depois do vento dá-se um terramoto e acende-se um fogo (vv. 11-12). Eram estes – segundo o profeta – os sinais inequívocos da passagem do Senhor. Deus sempre se tinha apresentado aos seus servos fiéis, no passado, no meio destes fenómenos impressionantes. Tinha-se manifestado a Moisés no fogo, entre relâmpagos e trovões, enquanto o monte tremia (Ex 19, 16-19); também Baal, o deus de Jezabel, aparecia na tempestade e no furacão, cavalgava as nuvens, lançava os relâmpagos e serpenteava no turbilhão dos ventos.

Elias ficou surpreendido porque o Senhor não estava no vento impetuoso, no terramoto e no fogo.

«Depois do fogo, ouviu-se uma ligeira brisa» (v. 12). Elias, assim que a ouviu, cobriu o rosto com o manto: tinha compreendido que aquele era o momento em que passava o Senhor. Deus tinha-se revelado de um modo completamente novo.

A tradução do versículo 10 deve ser corrigida. O texto original hebraico não fala de «ligeira brisa», mas de uma voz de silêncio ligeiro que o profeta ouviu. Foi no silêncio que Elias colheu a revelação do Senhor, e deu um salto em frente no seu caminho de fé. O Deus em que até ali acreditava conservava as características das divindades pagãs: era forte, tremendo, sempre pronto a mostrar a sua força contra os inimigos, era aquele que no monte Carmelo se tinha confrontado com Baal e vencera (1Rs 18, 20-40). Agora, Elias entendia: não fora o Senhor quem o tinha impelido a degolar os profetas de Baal na torrente de Quichon, mas a falsa imagem que fizera dele.

Na voz de silêncio ligeiro tinha descoberto o verdadeiro rosto do seu Deus, tinha entendido que o seu “zelo pelo Senhor” não era senão fanatismo; dera-se conta que a convicção de “ter ficado só” a adorar o Senhor derivava do dogmatismo e da intolerância. Eram sete mil os homens que, em Israel, não tinham dobrado o joelho a Baal, mas Elias não se dera conta (1Rs 19, 18). «Vai – diz-lhe o Senhor – e torna pelo caminho do deserto» (1Rs 19, 15), transformado interiormente pela voz de silêncio ligeiro que escutaste.

A experiência espiritual de Elias pode ser repetida por quem souber fazer silêncio dentro de si, por quem calar as vozes desencaminhadoras que lhe incutiram uma falsa imagem de Deus e – na reflexão sossegada e calma da Bíblia e do Evangelho – se deixar inundar pela luz verdadeira, a luz que brilha no rosto de Cristo.




SEGUNDA LEITURA

O sábio Qohélet afirmava: «o que aumenta o conhecimento, aumenta o sofrimento» (Ecl 1, 18). Poderíamos glosar: também quem aumenta o amor aumenta a dor. O pensamento de um filho, de um irmão, de uma irmã que fazem escolhas insensatas e arruinam a vida entristece-nos profundamente, acompanha-nos sem-pre como uma obsessão, cobre de amargura e melancolia até mesmo os momentos mais alegres. Não nos resignamos pelo facto de estas pessoas queridas terem deixado escapar a felicidade. Amamos a Igreja e gostaríamos que fosse como a sonhou o seu Esposo: pura como «o narciso de Saron e o lírio dos vales» (Ct 2, 1). Mas, pelo contrário, vemo-la por vezes em conluio ou cumplicidade inconsciente com os poderes deste mundo, hesitante, pouco evangélica.

Que deve fazer quem sofre por amor? Nada, a não ser continuar a amar e a esperar, com a paciência de Deus, que a semente do Evangelho realize o prodígio da conversão dos corações.

O exemplo de Paulo é iluminante. Ele sentiu profundamente o drama da rejeição de Cristo por parte do seu povo. Tinha um tal amor pela salvação de Israel que – diz ele, recorrendo a um paradoxo – estaria disposto até a ser excomungado e separado de Cristo, se isso servisse para recuperar o seu povo (v. 3). As suas palavras angustiadas lembram as de Moisés, que intercedia assim: «apesar disso, perdoa-lhes este pecado, ou então apaga-me do livro que escreveste» (Ex 32, 32).

Paulo não conseguia aceitar que o povo eleito, os filhos de Abraão, os herdeiros das promessas feitas aos patriarcas tivessem rejeitado o messias de Deus (vv. 1-2).

Quando escreve aos romanos, passaram-se já quase trinta anos desde a morte e ressurreição de Jesus. Durante este tempo, Paulo procurou, de todas as formas, anunciar Cristo aos seus irmãos israelitas, mas sem obter resultados; conseguiu apenas fazer aumentar a oposição deles.

Nos dois últimos versículos (vv. 5-6) são enumerados os privilégios que Israel recebeu de Deus; o último, o mais importante de todos, é o facto de Cristo ser filho deste povo.

Nesta situação de tristeza, um pensamento consola o Apóstolo: as promessas de Deus são irrevogáveis, e se Ele permitiu o endurecimento do coração de Israel, se «encerrou a todos na obediência, é para com todos usar de misericórdia» (Rm 11, 29.32).

É o pensamento que deve consolar quem sofre por amor: a história de cada pessoa irá concluir-se com a salvação.




EVANGELHO

«Levanta-te e come, pois tens ainda um longo caminho a percorrer» – disse o anjo do Senhor a Elias, em fuga para o deserto. O profeta levantou-se, comeu, bebeu, e «reconfortado com aquela comida, andou quarenta dias e quarenta noites, até chegar ao Horeb, o monte de Deus» (1Rs 19, 7-8).

Este famoso relato, do dom do pão e da água por parte do anjo a Elias, é seguido pela revelação do Senhor narrada na primeira leitura.

No trecho evangélico a cena repete-se: os discípulos, alimentados com o pão oferecido por Jesus (Mt 14, 13-20) recebem agora a ordem de se porem em movimento, de entrarem no barco e dirigirem-se para a outra margem. Como Elias, também a eles os espera uma revelação do Senhor.

Há vários pormenores estranhos neste episódio. Não é fácil encontrar uma razão para a ordem dada por Jesus: por que é que os manda partir sozinhos? Onde vão àquela hora? Por que não vai com eles? Como é que precisam de tantas horas para atravessar o lago? Não parece ser devido ao mau tempo, já que Ele sobe tranquilo ao monte para rezar e fica lá até de madrugada (v. 25). Mas o mais surpreendente é a pretensão de Pedro em querer caminhar sobre as águas e – tratando-se de um nadador experimentado – o seu receio em afundar (Jo 21, 7).

Estes detalhes singulares fazem desconfiar o exegeta. São um convite a olhar o trecho com circunspecção, porque não se trata do relato de um prodígio, mas de uma página de teologia redigida com imagens bíblicas.

Algumas destas imagens são bem conhecidas. A escuridão da noite, que está presente, com a sua carga de significados negativos, em numerosos textos do Antigo Testamento. Lembramos, por exemplo, o salmista que, durante a noite, grita ao Senhor sem encontrar sossego (Sl 22, 3). É com esta escuridão que os discípulos se devem confrontar. Caindo a noite, Jesus «obriga-os» a entrar no barco e a dirigirem-se «para a outra margem». Fica-se com a impressão de que eles não queriam, de que preferiam ficar ao lado do Mestre, mas Ele, após os ter nutrido com o seu pão, quer que partam, que empreendam sozinhos a perigosa viagem. O alimento que lhes deu representa a sua palavra e a sua pessoa presente no sacramento da Eucaristia. Nutridos por este duplo pão, eles têm a força necessária para levar até ao fim a perigosa travessia.

Se Jesus estivesse visivelmente presente no barco, as trevas dissipar-se-iam; a escuridão, porém, é densa.

Ao cair da tarde (v. 13) – digamo-lo já – indica, na linguagem simbólica do evangelista, a conclusão da jornada de Jesus, é o fim da sua vida, é o momento em que Ele «sobe ao monte» sozinho, em que se afasta das multidões e entra definitivamente no mundo de Deus. É por isso que os discípulos estão na escuridão. A escuridão é a imagem da desorientação, da dúvida que surge até mesmo no crente mais convicto. Há momentos em que até mesmo quem é animado por uma fé sólida se sente só, em que faz a experiência angustiante do silêncio de Deus, e em que então se pergunta se as suas opções, os seus sacrifícios, o seu empenho para o bem têm sentido.

Depois há o vento contrário. Os israelitas tinham a experiência do «furacão que se levantou do outro lado do deserto» (Job 1, 19), conhecem o «vento leste, que destroça as naus» (Sl 48, 8) e o «vento de tempestade» que levanta as ondas e rebenta com os barcos arrastando-os para o abismo, e faz os marinheiros cambalearem como ébrios» (Sl 107, 25-27).

O autor da Carta aos Efésios utiliza esta imagem para descrever o raciocínio insensato do homem, a mentalidade deste mundo, oposta à de Cristo. Lembra ele aos cristãos das suas comunidades: «Deixámos de ser crianças, batidos pelas ondas e levados por qualquer vento de doutrina, ao sabor do jogo dos homens» (Ef 4, 14).

As águas no Antigo Testamento eram a imagem das forças que levavam à morte. O salmista, que sofre de uma doença incurável, grita ao senhor: «Estende lá do alto a tua mão, arranca-me das águas caudalosas» (Sl 144, 7); um outro, tendo obtido a cura, diz: «Cercaram-me as ondas da morte e as vagas destruidoras encheram-me de terror... mas do alto Deus interveio e recolheu-me; tirou-me das águas caudalosas» (Sl 18, 5.7). Ao seu povo o Senhor promete: «Se tiveres de atravessar as águas, estarei contigo, e os rios não te submergirão» (Is 42, 2).

As águas foram sempre motivo de medo para os israelitas. Só o Senhor – diziam eles – não teme os turbilhões e as tempestades. Ele que, com a sua palavra, separou «as águas que estavam sob o firmamento das que estavam por cima do firmamento» (Gn 1, 7) é o único capaz de aplacar a violência das águas (Sl 107, 25-30) e só Ele «caminha sobre as ondas do mar» (Job 9, 8).

Considerando este simbolismo, compreende-se o susto dos discípulos: temem ser arrastados pelas forças do mal e da morte, estão às escuras e não vêem o Mestre a seu lado. É uma situação dramática, mas inevitável, e devem enfrentá-la.

O barco era açoitado pelas ondas. O texto original usa aqui o verbo grego basanízo, que significa exactamente submeter a uma prova. O básanos era a pedra duríssima usada na Lídia para verificar, através de uma fricção violenta, se um determinado metal era bom ou fraco.

As ondas atormentam, quase torturam os discípulos, mas são
a prova necessária a que devem ser submetidos se querem amadurecer.

 

Lá para o fim da noite aparece Jesus, caminhando sobre as ondas do mar, o que só Deus era capaz de fazer (Job 9, 8). Os discípulos não o reconhecem, crêem que se trate de um fantasma. É singular esta sua reacção! Que terá acontecido? Por que é que não o reconhecem?

Não estamos perante um texto de crónica, mas uma página de teologia. Mateus descreve, com uma linguagem bíblica, a situação das comunidades cristãs do seu tempo «atormentadas» por muitas provas, angustiadas pelas dúvidas, e sobretudo desorientadas pelo facto de já não terem consigo – visivelmente – o Mestre, que lhes poderia infundir segurança e coragem.

O evangelista quer iluminá-las: Jesus está sempre ao lado dos discípulos, todos os dias, até ao fim do mundo, como prometeu (Mt 28, 20), mas não fisicamente, como quando percorria as estradas da Palestina; está presente doutra forma, como um fantasma. É esta a pálida imagem usada nos Evangelhos para descrever o Ressuscitado e a sua nova condição de vida. Quando, no dia de Páscoa, Ele aparece no meio dos discípulos reunidos, eles «cheios de temor, julgavam ver um fantasma» (Lc 24, 37).

Não é fácil dar-se conta da sua presença. Ele só se torna reconhecível aos olhos da fé.

 

A segunda parte do trecho (vv. 28-33) contém o diálogo entre Jesus e Pedro. Inicia com o pedido do Apóstolo: «Se és Tu, Senhor, manda-me ir ter contigo sobre as águas» (v. 28). O seu pedido é estranho, mas somente para quem o toma em sentido literal. Se for entendido no contexto simbólico de todo o relato, então o seu significado é claro. Pedro, o primeiro dos discípulos, contempla o Mestre – o Ressuscitado – que atravessou as águas da morte e agora caminha sobre o mar, está no mundo de Deus. Sabe que é chamado a segui-lo no dom da própria vida, mas a morte assusta-
-o, teme não conseguir, e pede ao Senhor que seja Ele a comunicar-lhe a força.

Enquanto mantém os olhos fixos no Mestre consegue caminhar para Ele, mas quando a sua fé diminui, quando começa a duvidar da escolha que fez, então afunda e tem medo de ser engolido, de perder a vida.

É a descrição da nossa condição. «Vem!» – repete hoje o Ressuscitado a cada discípulo – não temas em perder a vida; se hesitas, a morte causa-te medo, mas se confiares na minha palavra, as águas da morte não te hão-de assustar, poderás atravessá-las e alcançar-me na ressurreição.

Fonte: O Banquete da Palavra / Fernando Armellini : Paulinas Editora

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Última actualização: 2010-12-01 00:00:00

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