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Inteligência Espiritual

  Domingo, 15 de Março de 2026 - DOMINGO IV DA QUARESMA    Orações Terço Via-Sacra Via Lucis
IV DOMINGO DA QUARESMA - Há Uma Luz Sem OcasoO Banquete da Palavra

Há coisas que conseguimos ver, outras que nos escapam. Crescem num ritmo vertiginoso os conhecimentos científicos que nos permitem examinar, controlar, quantificar tudo aquilo que é material. Despertam a nossa curiosidade e apaixonam-nos, fazem-nos sentir de tal forma orgulhosos que levam algumas pessoas a acreditar que seja verdadeiro somente aquilo que pode ser visto com os olhos, constatado pelos outros sentidos, verificado com os instrumentos de laboratório.

Mas a presunção de ter o controlo de toda a realidade deriva de um defeito de vista, do ofuscamento daquele olhar interior e espiritual, o único que nos permite vislumbrar alguma coisa dos mistérios de Deus, do sentido da vida e da morte e do destino final da história do homem.

Existe também outra cegueira, a de quem está convencido de que possui a luz e sabe dar o valor certo a cada coisa: ao dinheiro, ao sucesso, à carreira, à sexualidade, à saúde e à doença, à juventude e à velhice, à família, aos filhos... Mas foi buscar estas certezas à escala de valores deste mundo; deduziu-as – talvez até sem se dar conta – a partir dos impulsos e das emoções do momento, dos cálculos interessados, das ideologias e dos sistemas económicos contaminados pelo pecado, das bisbilhotices de salão.

Falsas luzes, esplendores passageiros, fogos de vista, cintilações enganadoras!

«O Verbo era a Luz verdadeira, que, ao vir ao mundo, a todo o homem ilumina» (Jo 1, 9), Cristo veio dissipar as nossas trevas, iluminar as nossas noites, introduzir-nos na família dos «filhos da luz e filhos do dia» (1Ts 5, 5).

Para interiorizar a mensagem, repetiremos:
- Tu és a luz do mundo. Quem te segue tem a luz da vida.



PRIMEIRA LEITURA

«Os pensamentos dos mortais são hesitantes, e incertas as nossas reflexões; porque o corpo corruptível é um peso para a alma.» Assim o autor do livro da Sabedoria põe de sobreaviso contra o perigo de se confiar de forma excessiva e ingénua nos critérios de julgamento do homem (Sb 4, 14).

O profeta, aquele a quem o Senhor confia os seus projectos e revela os seus mistérios, estará imune aos condicionamentos mesquinhos? De maneira nenhuma; é sempre uma pessoa, também para ele é difícil sintonizar os seus próprios pensamentos com os de Deus, também ele precisa de purificar o olhar se quer contemplar a realidade com os olhos do Senhor. Foi o que aconteceu a Samuel, o homem enviado por Deus a Belém para consagrar aquele que o Senhor tinha escolhido como rei.

Estamos em 1020 a.C. e o povo de Israel atravessa um momento difícil por causa dos Filisteus que o pressionam por todos os lados. Um homem valoroso, hábil, inteligente poderia talvez conseguir conter a arrogância de tão poderosos inimigos, mas onde encontrá-lo?

Um dia, o Senhor dá a entender a Samuel ter escolhido o homem certo: um jovem de Belém, um dos filhos de Jessé.

O profeta põe-se a caminho em direcção àquela cidade, procura a casa de Jessé, entra e relata aquilo que o Senhor lhe revelou. Jessé ilumina-se, está radiante por o Senhor ter escolhido um dos seus filhos para rei de Israel. Mas qual deles? – pergunta-se – visto que tem muitos. Após um momento de hesitação, pensa: será certamente Eliab, o primogénito, que é de grande estatura, altivo, robusto, não pode ser senão ele! Também Samuel é tocado pelo aspecto do jovem, pela imponência da estatura, porém, no seu íntimo, a voz do Senhor sugere-lhe: «Não, não é ele!»

Com uma certa desilusão, Jessé apresenta ao profeta, um após outro, os seus sete filhos, todos com boa presença, fortes, sagazes, e, no entanto, nenhum deles é o eleito. Também Samuel parece ficar perplexo, desorientado; pergunta ainda a Jessé: não tens mais filhos? Sim – responde – tenho ainda mais um, mas é um adolescente, é absurdo que Deus escolha logo esse para uma missão tão importante quando tem à disposição homens muito mais dotados.

O profeta – que agora começa a ver a realidade com olhos novos, os olhos de Deus – responde: vai buscá-lo, porque é ele o eleito!

É estranha, até mesmo ilógica, a escolha de Deus! Não é fácil entender o seu comportamento e não é a primeira vez que Ele age de acordo com critérios opostos aos dos homens. Logo desde o início da Bíblia, Ele demonstra ter predilecção por Abel em relação a Caim, e o texto sagrado não explica o motivo (não diz que Abel era bom e Caim mau). O motivo era outro: Hebel (Abel) em hebraico significa «vaidade», o que não tem consistência, portanto indica aquele que não conta. Abel é hebel e é também o mais fraco e o mais pequeno: por isso atrai o olhar do Senhor. Esta é, na Bíblia, a primeira manifestação da preferência do Senhor por quem não tem valor.

Depois Deus irá escolher um povo: observará os Egípcios, muito religiosos, construtores de pirâmides, conhecedores dos segredos da ciência; tomará em consideração os Babilónios, ricos, poderosos, avançados no campo do saber, mas também não os escolhe. Prefere Israel porque... era o mais pequeno (Dt 7, 7-8). Para libertar o seu povo dos Madianitas chamará Gedeão, que se defenderá dizendo: «Por favor, meu Senhor, como salvarei eu Israel? A minha família é a mais pobre de Manassés, e eu sou o mais jovem da casa de meu pai!» (Jz 6, 15).

Jesus irá comportar-se do mesmo modo: privilegiará os pequenos, os pecadores, os pobres, os pastores, as pessoas desprezadas e fará com que sejam os primeiros convidados para o banquete do Reino.

Como se explica esta predilecção de Deus? A resposta está na parte central da leitura: Deus não vê as pessoas assim como nós as vemos; o nosso olhar contempla a parte externa, não passa da superfície, fica-se pelo que é efémero, enquanto o seu chega ao coração. Até mesmo Samuel, o homem de Deus, o profeta do Senhor, hesitou um momento e deixou-se levar pelas aparências. Portanto, é fácil que isto aconteça. Até mesmo sem nos darmos conta emitimos juízos superficiais e injustos acerca das pessoas. A leitura convida-nos a reconhecê-lo, e a reconsiderar a nossa atitude à luz dos juízos e do olhar do Senhor.




SEGUNDA LEITURA

Na Bíblia, a luta entre o bem e o mal é muitas vezes apresentada com a imagem da antítese luz e trevas. «Que há de comum entre a luz e as trevas?» – pergunta Paulo aos coríntios (2Cor 6, 14). O drama está no facto de que o homem pode escolher as trevas e afastar-se de Deus que é luz (1Jo 1, 5.7).

Para os semitas – que tinham assimilado muitos aspectos das concepções dualísticas persas – o Oriente, onde nasce o Sol, era o símbolo de Deus, enquanto o Ocidente evocava o maligno. Numa das suas célebres catequeses baptismais, Cirilo de Jerusalém (século IV) lembrava aos seus fiéis: «Virados para Ocidente, vós estendeste as mãos e renunciaste a Satanás, porque o Ocidente é o lugar das trevas cerradas e o império de Satanás está lá na es-
curidão.»

As exortações contidas na leitura devem ser vistas no contexto desta mentalidade.

Lembra-se aos cristãos que no Baptismo passaram das trevas para a luz, e por isso deles esperam-se as obras da luz. Paulo evoca-as e resume-as: todo o tipo de bondade, de justiças e de verdade. Quanto às obras das trevas – continua – essas são tão vergonhosas que quem as faz esconde-se, teme a luz e procura instintivamente a escuridão.

O Apóstolo sugere, por fim, a forma de contrastar as obras más: com a denúncia aberta e decisiva (v. 13). As acções vergonhosas devem ser condenadas com firmeza; não se pode procurar justificá-las, desculpá-las, torná-las de certa forma aceitáveis. O simples facto de as chamar pelo seu próprio nome e não com circunlo-
cuções equívocas já as põe a descoberto, é já projectar sobre elas um feixe de luz que as priva da sua melhor protecção. Quando não há obscuridade, as obras más encontram-se fora do seu ambiente vital.

É uma chamada de atenção ao dever que cada cristão tem de denunciar com coragem tudo aquilo que é desregramento. O perigo de se deixar enredar em falsos raciocínios, pelos quais «ao mal chamam bem, e ao bem, mal» (Is 5, 20), está sempre presente, também para os cristãos.




EVANGELHO

Desde os primeiros tempos da Igreja que o relato do cego de nascença é proposto na Quaresma.

É fácil perceber porquê: na história do cego de nascença cada cristão pode facilmente reconhecer a sua própria história. Antes de encontrar Cristo era cego, depois o Mestre deu-lhe a vista, iluminou-o na água da fonte baptismal. Quando, depois de Constantino, se começaram a construir os primeiros baptistérios, deu-se-lhes o nome de photistéria: lugares da iluminação.

No trecho de hoje, João serve-se de um episódio da vida de Jesus para desenvolver o tema central da mensagem cristã: a salvação que nos foi dada por Cristo.

Utiliza a linguagem bíblica: a contraposição trevas-luz. Na Bíblia, as trevas têm sempre uma conotação negativa, são o símbolo do poder obscuro do mal, da morte, da perdição; pelo contrário, a luz representa a orientação para Deus, a escolha do bem e da vida.

 

A cura do cego de nascença é posta no contexto da Festa das Tendas (Jo 7, 2), a mais popular de todas as festas judaicas, tanto que era chamada simplesmente «a festa». Durava uma semana e era caracterizada por uma explosão de alegria e pelas liturgias da luz e da água.

No átrio do templo, iluminado todas as noites por grandes tochas, havia um poço onde se ia buscar a água para as oferendas. A ele se referia a profecia de Isaías: «Tirareis água com alegria das fontes da salvação» (Is 12, 3). No segundo dia de festa, celebrava-
-se o rito da «alegria do poço», com danças e cânticos. Jesus esperou pelo «último dia, o mais solene da festa» para se pôr em pé e bradar: «Se alguém tem sede, venha a mim; e quem crê em mim sacie a sua sede» (Jo 7, 37). Foi durante esta festa da luz que Ele proclamou também: «Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida» (Jo 8, 12).

Para conseguirmos entender a densidade da mensagem do Evangelho de hoje devemos ter presente este contexto festivo e as referências à água e à luz. O cego só verá a luz depois de se ter lavado com a água do Enviado.

Iremos dividir o trecho em sete partes, como se fossem sete cenas de uma peça teatral.

 

A primeira cena (vv. 1-5) tem início com um diálogo entre Jesus e os discípulos. A intervenção deles é claramente um artifício literário pelo qual é dada a Jesus a oportunidade de indicar a chave de leitura do episódio. Reduzindo o trecho a uma reportagem jornalística, não se consegue entender o simbolismo da cura do cego de nascença, perde-se a mensagem central: Jesus é «a luz do mundo» (vv. 4-5).

A pergunta dos discípulos é talvez também a nossa: «Quem é que pecou para ele nascer cego? Ele ou os seus pais?» (v. 2).

No tempo de Jesus considerava-se que, na sua infinita justiça, Deus premiasse os bons e punisse os maus já neste mundo, de acordo com as suas obras. As desgraças, as doenças, os sofrimentos eram considerados um castigo pelos pecados.

Esta teologia – ditada pela lógica e pelos critérios humanos – nunca foi fácil de explicar. Job ria-se dela: «Porque é que os maus continuam a viver e ao envelhecer se tornam ainda mais ricos? A sua descendência prospera à vista deles, e os seus filhos crescem sob os seus olhos... Acabam os seus dias na ventura, e descem tranquilamente ao sepulcro» (Job 21, 7-8.13), e a quem contrapunha: «Será que Deus deixa para os filhos o seu castigo?» respondia: «Que os seus próprios olhos vejam a sua ruína. Que lhes importa a sua casa depois de mortos, quando for contado o número dos seus dias?» (Job 21, 19-21).

Não obstante tudo, a teologia da «justa retribuição» era aceite por toda a gente, e para explicar o nascimento de uma pessoa deficiente chegava-se a supor que tivesse pecado no ventre materno.

A posição que Jesus toma acerca deste assunto é clara e iluminante: «Isso não tem nada a ver com os pecados dele ou dos pais» (v. 3). É blasfemo falar de castigos de Deus, é uma forma pagã de o imaginar. Quando a Bíblia fala dos «castigos de Deus» utiliza uma linguagem arcaica que já não é a de hoje, e pretende referir os desastres provocados pelo pecado, não por Deus. Hoje em dia é incorrecto e enganador utilizar a metáfora do «castigo de Deus» sem esclarecer imediatamente o seu significado.

Perante o mal não faz sentido perguntar de quem é a culpa, a única coisa a fazer é trabalhar para o eliminar, como fez Jesus.

«Aconteceu assim – diz Jesus referindo-se ao cego – para se manifestarem nele as obras de Deus» (v. 3). Cada acontecimento é ambivalente. Fomos nós que catalogámos os acontecimentos como bons e maus, porém cada um deles pode ser bom ou mau; depende do modo como se vive, e pode-se tornar acontecimento de salvação ou determinar uma derrota.

O cego não tem culpa por ter nascido assim.

Aqui vê-se o simbolismo joanino: a cegueira é a condição em que a pessoa nasce. Não é culpa sua nem dos outros. É cego e nem sequer tem a ideia do que possa ser a luz, tanto que nem pensa em pedir a Jesus que o cure; é Jesus quem toma a iniciativa de o fazer, e com o seu gesto mostra que a sua salvação (a sua luz) é um dom completamente gratuito.

Onde está Ele, está a luz, é dia. Onde Ele não está, é noite profunda (v. 5).

 

Na segunda cena (vv. 6-7) é descrita, de forma muito sintética, a cura do cego. O método utilizado é um pouco estranho: o lodo, a saliva... Jesus adequa-se à mentalidade do seu tempo que considerava a saliva um concentrado do hálito, do espírito, da força de uma pessoa. Neste gesto – realizado outras vezes por Jesus (Mc 7, 33; 8, 23) – há talvez uma referência à criação do homem relatada no livro do Génesis (Gn 2, 7). Ou seja, o evangelista pretenderia assim insinuar a ideia que do hálito, do Espírito de Jesus nasce o homem novo, iluminado.

O cego não recupera imediatamente a vista, tem primeiro que se ir lavar à água de Siloé, e João nota que este nome significa «enviados». A referência a Jesus – o enviado do Pai – é explícita. É a sua água, a mesma que prometeu à samaritana, que cura a cegueira do homem.

 

A terceira cena introduz o primeiro dos interrogatórios ao cego (vv. 8-12).

Iluminado por Jesus, tornou-se irreconhecível, mudou completamente, tanto que os seus vizinhos, que durante anos viveram a seu lado, se perguntam: «É ele ou não é ele?»

É a imagem da pessoa que, a partir do dia em que se tornou discípulo, se transformou de tal modo que já não parece a mesma. Antes levava uma vida corrupta, era intratável, egoísta, ávida, carran-cuda, e agora já não, mudou o seu modo de pensar, de falar, de julgar, de avaliar pessoas e acontecimentos, de enfrentar os problemas, de reagir às provocações. Foi a água da palavra de Cristo que lhe abriu os olhos, que lhe fez descobrir o quanto era desprovida de sentido a vida que levava antes. Criou uma pessoa nova, iluminada.

Porém, o caminho do discípulo para a luz é longo e cansativo. O evangelista apresenta-o com a imagem do cego que começa o seu percurso no momento em que encontra o homem Jesus. «Esse homem que se chama Jesus – diz ele – fez um pouco de lodo», e a quem lhe pergunta: «Onde está Ele?», responde: «Não sei.» Confessa a própria ignorância, reconhece não saber ainda nada acerca dele.

O ponto de partida do caminho espiritual do discípulo é a tomada de consciência de não conhecer Cristo, e de sentir a necessidade de saber algo acerca dele.

 

Na quarta cena (vv. 13-17) intervêm as autoridades religiosas que submetem o cego a um segundo interrogatório. Não se preocupam em verificar o que aconteceu. Já decidiram que devem condenar Jesus porque não corresponde à ideia de homem religioso que eles têm. Arrogando-se o direito de falar em nome de Deus, classificam-no entre os maus, entre os inimigos do Senhor, com base em normas e critérios que eles mesmos estabeleceram.

Esta convicção de estar certos e de não precisarem de outras luzes, a recusa a pôr em causa as próprias certezas teológicas, leva-
-os a afirmar altaneiros: «Esse homem não vem de Deus...»
(v. 16). São cegos, convencidos de poderem ver.

A posição assumida por estes fariseus é uma chamada de atenção para o perigo que corre quem começa a conhecer Cristo. Se fica agarrado às suas próprias seguranças e convicções, se recusa terminantemente qualquer mudança, permanece escravo das trevas.

Pelo contrário, o cego, que está consciente de «não saber», dá um segundo passo. Aos fariseus que lhe perguntam: «Tu que dizes?», responde: «É um profeta» (v. 17). Antes pensava que fosse um simples homem, agora entendeu que é algo mais, que está um pouco mais acima: é um profeta.

 

A quinta cena (vv. 18-23) relata um novo interrogatório. Desta vez as autoridades chamam os pais do cego. Detêm o poder e não podem tolerar que alguém ponha em causa as suas convicções e o seu prestígio. Quem ousa opor-se deve ser afastado. São tão poderosos que até mesmo os pais têm medo de tomar posição a favor do filho.

É a história de quem é iluminado por Cristo: deixa de ser entendido, é abandonado e, por vezes, até mesmo traído pelas pessoas mais queridas, por aquelas de quem esperaria encorajamento e apoio.

É sempre difícil e arriscado pôr-se do lado da verdade: o receio de perder a amizade de quem conta ou a simpatia de quem detém o poder, leva muitas vezes a não intervir quando se deve, provoca hesitações e silêncios culposos.

 

Na sexta cena (vv. 24-34), as autoridades religiosas chamam de novo o cego.

Nas suas respostas, na sua atitude podem-se ver as características que identificam quem é iluminado por Cristo.

Antes de mais, é livre: não vende a sua cabeça a ninguém, diz aquilo que pensa. «É um profeta» – afirma, referindo-se a Jesus – e quando lhe contrapõem: «Nós sabemos que esse homem é pecador», dá-se ao luxo de responder com ironia: «Se é pecador, não sei. O que sei é que eu era cego e agora vejo», e, logo depois, ainda mais irritante, acrescenta: «Isto é realmente estranho, não sabeis de onde Ele é...»

É corajoso: recusa qualquer forma de servilismo, não se deixa intimidar por aqueles que, abusando do seu poder, insultam, ameaçam, recorrem à violência (vv. 24ss.).

É sincero: não renuncia a dizer a verdade, mesmo quando esta é incómoda ou desagrada a quem está no alto, a quem está habituado a receber apenas a aprovação e os aplausos dos aduladores.

É simples como uma pomba, mas também prudente.

As autoridades tentam estender-lhe uma armadilha, obrigando-o a admitir que está ao lado de quem «não guarda o sábado», mas ele, com habilidade, escapa: «Já vos disse e não destes ouvidos. Porque desejais ouvi-lo novamente?», e acrescenta com um novo golpe de ironia: «Também quereis fazer-vos seus discípulos?» (v. 27).

– Mantém-se numa atitude de procura constante: sabe que entreviu algo, percebeu uma parte da verdade, mas está consciente de que há ainda muitas coisas que lhe escapam. As autoridades estão convencidas de ter já percebido tudo, de ver tudo com clareza: «Esse homem não vem de Deus» (v. 16); «Nós sabemos que esse homem é pecador» (v. 24); «Nós sabemos que Deus falou a Moisés» (v. 29).

O que era cego, pelo contrário, reconhece sempre os seus limites: «Onde está, não sei» (v. 12); «Se é pecador, não sei» (v. 25); e quando Jesus lhe irá perguntar se acredita no Filho do homem, ele responderá: «Quem é?», reconhecendo mais uma vez a sua ignorância (v. 34).

 

Na última cena (vv. 35-41) volta a aparecer Jesus.

Tudo se desenrolou como se Ele não existisse. Nunca mais interveio, deixou que o cego resolvesse a questão sozinho no meio daquelas dificuldades e conflitos.

O discípulo iluminado não precisa da presença física do Mestre, basta-lhe a força da sua luz para se manter firme na fé e fazer escolhas coerentes.

No final, Jesus intervém e pronuncia a sua sentença, a única que importa quando se trata de decidir o sucesso ou o fracasso da vida de uma pessoa. Ele diz: no início havia uma pessoa cega e muitas que viam, agora a situação inverteu-se, aqueles que estavam convencidos de ver são, de facto, cegos incuráveis; pelo contrário, aquele que tinha consciência da sua cegueira agora vê.

Note-se como foi chamado Jesus ao longo de todo o relato: para as autoridades – para os «videntes» – ele é «esse homem», «ele», «aquele»; os chefes não se dignam sequer chamá-lo pelo nome, têm olhos mas não querem ver quem Ele é.

O cego faz um percurso de fé que corresponde ao de todos os discípulos: no início Jesus é para ele um simples «homem» (v. 11); depois torna-se um «profeta» (v. 17); passa a ser um «homem de Deus» (vv. 32-33); no fim é o «Senhor» (v. 38). Este título é o mais importante, é aquele com que os cristãos proclamavam a sua fé. Antes de ser imerso na água do photistérion, durante a solene cerimónia da noite de Páscoa, cada um dos catecúmenos declarava, perante toda a comunidade: «Creio que Jesus é o Senhor.» A partir daquele momento era acolhido entre «os iluminados».

Fonte: O Banquete da Palavra / Fernando Armellini : Paulinas Editora

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1 Sam 16, 1b.6-7.10-13a
Salmo:
Salmo 22 (23), 1-3a.3b-4.5.6 (R. 1)
Leitura II:
Ef 5, 8-14
Evangelho:
Jo 9, 1-41
Liturgia das Horas:
Domingo IV
Terço do Rosário:
Mistérios Gloriosos

 

   
 


Última actualização: 2010-12-01 00:00:00

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