XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM - O Perdão: Uma Obra-prima de Deus «Não quebres o ténue fio da amizade, porque, depois de partido, mesmo que o consertes, fica sempre com um nó.» Estava eu na escola primária quando o professor me deu este conselho que me ficou impresso na memória, e do qual me lembro sempre que venho a saber de contrariedades, dissabores, desacordos e me angustia pensar que basta um erro para pôr fim, para sempre, a uma amizade, àquela relação que a Bíblia chama «bálsamo de vida» (Eclo 6, 16). «Como um pássaro que tu soltaste da tua mão, assim deixaste ir o teu amigo, e não o encontrarás mais. Não o persigas, porque já está muito longe» (Eclo 27, 19-20).
A incapacidade de perdoar, o medo de voltar a confiar plenamente em quem errou, são estas as forças malignas que tornam irrecuperável uma união de amor quebrada.
Perdoamos com dificuldade a nos próprios: atormentamo-nos com remorsos, não aceitamos a humilhação de um momento de fraqueza e, como uma bomba que não explodiu e está ainda armada, arrastamos connosco a nossa culpa. Só quem tem uma relação serena consigo mesmo está em condições de reconhecer o seu próprio erro, e sabe ser possível uma recuperação positiva da experiência amarga do pecado.
Não perdoamos aos outros. É muito grande a desilusão, a dor pela traição cometida, e o receio que possa repetir-se; é quase irrefreável o impulso de quebrar o relacionamento e vingarmo-nos pela ofensa sofrida.
Arrastados para este vórtice de ressentimentos e paixões, deixamos escapar a alegria maior, aquela que também Deus experimenta, centuplicada, quando consegue fazer com que floresça uma relação de amor. Mesmo a quem é idoso, Ele concede sempre a oportunidade de recomeçar, dando-lhe sempre uma perene juventude.
Para interiorizar a mensagem, repetiremos: - Que não prevaleçam os nossos sentimentos, mas a acção do teu Espírito.
PRIMEIRA LEITURAQuem se sente vítima de uma injustiça é levado instintivamente a agredir os responsáveis. Daqui derivam os ajustes de contas, a ira, os rancores, o ódio. Mas, dando livre curso a estas paixões, dá- -se remédio aos abusos ou piora-se o mal? Ao longo da história foram dadas várias respostas a esta questão.
Nos tempos mais antigos, o método para compensar as afrontas sofridas e para desencorajar outras era simples: reagia-se com a represália, restituía-se o mal... com juros. O exemplo mais célebre desta vingança sem limites é o de Lamec, o filho de Caim, o primeiro polígamo, que, diante das suas duas mulheres, cantava: eu mato quem me fere, mato a criança que me pisa um pé! «Se Caim foi vingado sete vezes, Lamec sê-lo-á setenta vezes sete» (Gn 4, 23-24).
Um passo em frente, relativamente a esta reacção brutal, é dado pela famosa lei «olho por olho, dente por dente, ferida por ferida» (Ex 21, 24) que – como vimos no comentário ao Evangelho do sétimo domingo – não é um convite a restituir o mal cometido, mas a fazer com que a punição seja justa.
Porém, o Antigo Testamento não se ficou por esta justiça razoável, legítima, mas ainda primitiva, foi mais além. No livro do Levítico ordena-se: «Não te vingarás nem guardarás rancor aos filhos do teu povo, mas amarás o teu próximo como a ti mesmo» (Lv 19, 18). É o ponto mais alto a que chegaram os sábios de Israel, e o trecho que nos é proposto reflecte esta linha.
O Sirácide – rico da sabedoria que lhe vem da experiência – dirige-se ao discípulo e, de homem para homem, procura convencê- -lo a evitar os comportamentos insensatos ditados pelo desejo de vingança, de ira, de rancor. Estes sentimentos são abomináveis e criam uma barreira, subtil mas impenetrável, na relação entre Deus e o homem, impedem que dialoguem e se entendam.
Depois continua a sua reflexão, convidando o discípulo a ir para além da simples justiça e a abrir de par em par as portas do coração à misericórdia. A clemência para quem nos ofende – diz ele – é condição indispensável para rezar e obter o perdão de Deus: Um homem guarda rancor contra outro e pede a Deus graças? (cf. v. 3).
São reflexões simples, claras, calmas; levam até ao limiar do Reino de Deus, dispõem a ouvir a palavra de Jesus que leva à perfeição a sabedoria já presente no Antigo Testamento.
SEGUNDA LEITURANo capítulo 14 da Carta aos Romanos, Paulo trata um problema que é sempre muito actual: como resolver as divergências de opinião entre os membros da comunidade?
Havia em Roma dois grupos de cristãos: alguns – a quem Paulo chama os fracos – estavam ligados às tradições dos antigos, observavam os dias de jejum, praticavam uma ascese severa, absti-nham-se de certas carnes; outros – os fortes – pelo contrário, mais amadurecidos, sentiam-se vinculados pela única lei do amor ao irmão, e quanto ao resto comportavam-se como pessoas livres.
Devido a estes contrastes entre tradicionalistas e inovadores, tinham surgido várias tensões na comunidade de Roma. Os primeiros acusavam os fortes de permissivismo, consideravam-nos pouco virtuosos, infiéis à lei de Moisés. Estes, por sua vez, reagiam com observações pesadas: tratavam os fracos por retrógrados, obtusos mentais, incapazes de compreender a novidade absoluta do Evangelho. Como construir uma convivência pacífica entre pessoas de tendências tão opostas? Não era fácil (assim como não o é também hoje!).
Paulo – que pertencia ao grupo dos fortes – propõe duas regras, uma para cada um dos dois grupos; se forem respeitadas, estas regras permitem chegar a uma aceitação recíproca. Dirige-se, antes de mais, àqueles do seu grupo, aos fortes, e pede respeito pelos fracos, pelas suas práticas religiosas um pouco antiquadas, pelas suas devoções, pelas tradições caídas já em desuso. Mas também os fracos devem estar atentos a não prevaricar. Deles, o Apóstolo exige que se abstenham de julgar os fortes, de pensar que quem não segue as tradições dos antigos é infiel ao Evangelho (Rm 14, 1-6). Se os dois grupos aceitarem estas duas normas, poderão conviver pacificamente; doutra forma, haverá sempre entre eles incompreensões, dificuldades, tensões.
Os versículos seguintes (vv. 7-9) – os únicos que constam de leitura de hoje – apresentam um princípio que ajuda a resolver todos os desacordos: o cristão deve ter sempre presente que ele não vive para si mesmo, para os próprios interesses, mas para o Senhor. Então, na sua relação com os irmãos, não se deve deixar conduzir por considerações humanas. Vive e morre «para o Senhor».
EVANGELHONa explicação da primeira leitura, vimos que houve uma evolução progressiva no modo de reagir às ofensas e afrontas recebidas: passou-se do acerto de contas a soluções mais equitativas e, por fim, ao perdão.
No tempo de Jesus, insistia-se muito na necessidade de se manterem relações pacíficas. Condenava-se a vingança, a ira, o rancor e exigia-se a reconciliação. Quem errou – ensinavam os guias oficiais – deve reconhecer o próprio erro e implorar o perdão, e a pessoa ofendida é obrigada a dá-lo. Se o recusa, o culpado pede desculpa diante de duas testemunhas para demonstrar ter feito todo o possível para restabelecer a paz. Se quem foi ofendido morrer antes da reconciliação, quem lhe fez mal vai ao seu túmulo e, depondo uma pedra, declara: «Agi mal para contigo.»
Porém, a obrigação de perdoar era restrita aos membros do povo de Israel e não era ilimitada. Não mais que três vezes – afirmavam os rabis – à quarta devia-se ir para as vias legais.
A pergunta com que abre o Evangelho de hoje – «Se o meu irmão me ofender, quantas vezes deverei perdoar-lhe? Até sete vezes?» (v. 21) – revela que Pedro entendeu que Jesus quer ir mais além dos limites estabelecidos pelos escribas. Certamente recorda aquilo que foi dito no discurso da montanha: «se fores apresentar uma oferta sobre o altar e ali te recordares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; depois, volta para apresentar a tua oferta» (Mt 5, 23-24) e ainda «se perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai celeste vos perdoará a vós; se, porém, não perdoardes...» (Mt 6, 14-15). Tem presente também a outra afirmação inequívoca do Mestre: «se o teu irmão te ofender sete vezes ao dia e sete vezes te vier dizer: “arrependo- -me”, perdoa-lhe» (Lc 17, 3-4).
Está desorientado: o número sete indica a totalidade; será que, por acaso, se deverá perdoar sempre e sem condições? Pede uma confirmação daquilo que começa a intuir (v. 21).
A resposta de Jesus vai mais além daquilo que, para Pedro, já era assustador: «Não te digo até sete vezes (ou seja, sempre), mas até setenta vezes sete (mais ainda que sempre)» (v. 22). É uma referência às palavras desdenhosas e arrogantes de Lamec que se vangloriava de praticar a vingança sem limites. Usando-as, Jesus quer ensinar que o perdão deve chegar ao infinito, da mesma forma que chegara ao infinito a arrogância do filho de Caim.
Para explicar melhor o seu pensamento, conta uma parábola (vv. 23-35).
Foi apresentado ao rei um servo que lhe devia dez mil talentos. O talento corresponde a trinta e seis quilos de ouro; o seu valor, multiplicado por dez mil – a cifra mais elevada da língua grega – dá uma soma enorme que corresponde ao ordenado de 200 000 anos de trabalho, 2 400 000 ordenados mensais. Seria impensável alguém poder restituir uma tal soma.
A uma vintena de imagens usadas pela Bíblia para definir o pecado, tinha-se acrescentado, nos últimos séculos antes de Cristo, uma outra que acabara por prevalecer: a da dívida para com Deus. A gente do povo sentia-se sempre em atraso com os pagamentos. Orações, sacrifícios, ofertas, jejuns, boas obras, nada disto era suficiente para compensar as inúmeras infracções da Lei; as pessoas sentiam-se cada vez mais endividadas para com o Senhor. Só os fariseus estavam convencidos de ter a contabilidade em dia. Era uma ilusão trágica, a deles, porque – como declara Paulo, não obstante ter vivido de forma irrepreensível – «todos pecaram e estão privados da glória de Deus» (Rm 3, 23); perante Deus o homem é um devedor insolvente.
Mostrando uma generosidade ilimitada, o senhor da parábola – que representa Deus –, enternecido com as súplicas do seu servo, perdoa toda a dívida.
Não há pecado que Deus não perdoe, não há culpa superior ao seu amor imenso. Também Paulo recorre à mesma imagem: Deus «nos perdoou todas as nossas faltas, anulou o documento que era contra nós; aboliu-o inteiramente e cravou-o na cruz» (Cl 2, 13-14).
Como pôde o homem acumular uma dívida tão exorbitante? Aceitando os inúmeros dons que o Senhor lhe ofereceu? Não é possível, porque o dom é gratuito e não gera devedores. Tratar-se--á, então – como pensavam os rabis –, dos pecados, das transgressões? Também esta interpretação não satisfaz, e já veremos porquê.
Na segunda parte da história (vv. 28-30), entra em cena outro servo, que deve ao primeiro cem denários, uma soma respeitável – equivale a cem dias de trabalho – mas irrisória se for confrontada com a que foi perdoada pelo rei.
O segundo devedor dirige ao colega a mesma súplica, e espera obter a mesma compaixão. Mas o servo cruel agarra-o pelo pescoço e começa a sufocá-lo, dizendo: dá-me aquilo que me deves!
A mensagem central da parábola deve ser procurada – é evidente – na enorme desproporção entre as duas dívidas, bem como no contraste gritante entre o comportamento de Deus, que perdoa sempre, e o do homem, que pretende a restituição até ao último centavo. A imagem da sufocação dá bem a ideia da sujeição psicológica em que fica quem errou. Como um credor cruel, o ofendido «segura-o» e pode tirar-lhe a respiração e a alegria de viver com uma simples chamada de atenção, com uma pequena alusão ao erro cometido.
A parábola poderia dar a ideia de que nós somos responsáveis por pecados enormes, enquanto que dos irmãos recebemos apenas pequenas indelicadezas. Porém, temos a certeza que, muitas vezes, se verifica o contrário: nós cometemos sem dúvida alguma pequena falta, enquanto que os outros nos causaram danos consideráveis.
Aqui, não se trata de calcular a consistência das afrontas sofridas. Jesus quer pôr em evidência a distância imane que existe entre o coração de Deus e o do homem, entre o seu amor e o nosso.
O pecado não é um simples erro, é a ruptura da relação de aliança e de amor nupcial que liga o homem a Deus. Se considerarmos que o discípulo é chamado a «ser perfeito como é perfeito o Pai celeste» (Mt 5, 48) é fácil intuir que a «dívida» para com Ele é abissal (da mesma forma que é insolúvel a dívida dos dez mil talentos). Comparada com isto, a distância que separa o maior santo de um pecador é irrisória, e pode ser preenchida (assim como é realista a restituição dos cem denários).
Na oração, nós pedimos ao Pai para «perdoar as nossas ofensas». As culpas que cometemos não representam toda a nossa dívida; elas dizem respeito ao passado e não são infinitas, são apenas um pequeno sinal da distância imensa que nos separa do amor do Pai. É esta a dívida que nós pedimos que seja perdoada. A nossa oração – «perdoai as nossas ofensas» – não diz respeito apenas aos erros passados, mas é dirigida sobretudo ao futuro.
O que espera Deus de nós? A sua mesma «compaixão»: quer que não tenhamos o irmão escravo do passado, pretende que não o sufoquemos enquanto ele tenta desesperadamente sair do abismo; pede-nos que o ajudemos «setenta vezes sete», renunciando a qualquer tipo de compensação da parte dele. Os filhos de Deus são «misericordiosos como o Pai celeste» (Lc 6, 36) e compreenderam que «o amor não guarda ressentimento, tudo desculpa, tudo crê» (1Cor 13, 5-7). Quem fez sua esta nova lógica está disposto a perder, esquece todos os seus direitos só para ver o irmão novamente feliz, sereno e livre do seu pecado.
A última cena é de causar arrepios (vv. 31-35). Perante o modo com que o servo que tinha sido perdoado trata o seu semelhante, o senhor, desgostoso, fica profundamente indignado: manda-o chamar, atira-lhe à cara a sua malvadez e entrega-o aos verdugos que o devem torturar até que restitua tudo aquilo que deve. A conclusão é desconcertante: «Assim meu Pai celeste procederá convosco, se cada um de vós não perdoar a seu irmão de todo o coração.»
Então, o Senhor paga com a mesma moeda àqueles que são cruéis para com os seus «devedores»? Uma tal interpretação desmentiria toda a mensagem da parábola que, pelo contrário, pretende apresentar um Deus que perdoa sempre ao homem.
Temos diante de nós uma história onde são utilizadas imagens dramáticas. Os pregadores do tempo de Jesus utilizavam-nas com frequência nos seus discursos para abalar os seus ouvintes e pôr em relevo uma determinada mensagem. O evangelista não descreve aquilo que Deus fará no final, mas apresenta o que Ele quer que o homem faça agora. Para não falsear a mensagem de Jesus, é então necessário «limpar» a parábola dos tons fortes com que a revestiu a linguagem cultural semita de há dois mil anos. Considerá- -la uma descrição do comportamento do Pai que está nos Céus seria uma interpretação blasfema.
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