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  Domingo, 16 de Agosto de 2026 - DOMINGO XX DO TEMPO COMUM    Orações Terço Via-Sacra Via Lucis
XX DOMINGO DO TEMPO COMUM - Os «Cães» Transmutados em «Cordeiros» da FéO Banquete da Palavra

A sul da cidade de Jerusalém está assinalado ainda hoje o «Campo do Oleiro», o terreno adquirido com as moedas de prata devolvidas por Judas aos sacerdotes do templo (Mt 27, 3-10). Era o local onde alguns reis de Israel tinham cometido patifarias horrendas, tendo chegado a sacrificar os próprios filhos a Baal. Por volta do final do século VII a.C. o piedoso rei Josias profanara-o (2Rs 23, 10) e, desde então, ser-se sepultado ali era considerado o cúmulo da ignomínia. Com o dinheiro da traição, os sumo sacerdotes compraram aquele campo destinando-o a cemitério para a sepultura dos estrangeiros (Mt 27, 7). Aos pagãos impuros e imundos não podia ser reservado senão um lugar maldito (Jr 19, 11), e mesmo depois de mortos tinham que ser mantidos separados dos filhos de Abraão.

O impulso à discriminação e a tendência a erguer barreiras entre bons e maus, entre puros e impuros, entre santos e pecadores, estão profundamente enraizados no coração do homem, e afloram das formas mais variadas: no receio do confronto, na incapacidade de gerir um diálogo aberto, sereno e respeitoso com quem tem opiniões diferentes; por vezes estes impulsos são camuflados sob a denúncia de perigos reais – o sincretismo, o irenismo, a perda da identidade, a renúncia aos próprios valores.

Como pode falar de ecumenismo quem considera os outros «distantes»? Quem pode ser tão presunçoso que se considere «próximo»? Estamos todos «distantes» de Cristo e em caminho para a perfeição do Pai que está nos Céus (Mt 5, 48). Só quem toma consciência de ser «impuro», de não ter méritos para apresentar diante de Deus, é que se encontra na atitude justa para acolher a salvação. «Os cobradores de impostos e as meretrizes vão preceder-vos no Reino de Deus» – garantiu Jesus. Não tendo méritos para se gloriarem, entregam-se espontaneamente ao Senhor e chegam antes de quem se considera puro (Mt 21, 31).

Para interiorizar a mensagem, repetiremos:
- Envergonhávamo-nos por tê-los como companheiros de viagem. E depois a surpresa: entraram antes de nós no Reino de Deus.



PRIMEIRA LEITURA

O receio de perder a sua identidade nacional e religiosa levou Israel a isolar-se dos outros povos, e a estabelecer normas restritivas em relação aos estrangeiros. O livro do Deuteronómio ordena: «não farás nenhum pacto com os estrangeiros, nem terás pena deles. Não farás alianças de casamento com nenhum deles; não darás a tua filha ao seu filho, nem desposarás a sua filha com o teu filho. Isso desviaria o teu filho de mim e eles adorariam deuses estrangeiros» (Dt 7, 2-4).

Depois veio o exílio na Babilónia. Foi uma experiência amarga mas preciosa, da qual os israelitas saíram amadurecidos. Obrigados a confrontarem-se com a cultura de outros povos, corrigiram os seus preconceitos e deram-se conta que muitos dos seus receios eram infundados; os pagãos não eram por princípio maus e perversos, mas tinham também sentimentos nobres e davam mostras de uma moral muito elevada. A sua religião não era um somatório de disparates, mas continha elementos apreciáveis.

Regressando do exílio, tinham assimilado uma mentalidade universalista, mas não todos. Os guias políticos e espirituais continuavam a alimentar desconfianças, suspeitas, temores injustificados. Esdras, por exemplo, rasgou a veste, arrancou os cabelos e os pêlos da barba quando foi informado que muitos tinham profanado a estirpe santa aparentando-se com as populações locais (Esd 9).

É neste tempo, caracterizado por tensões e intolerância, por tentativas de abertura e integralismos, que surge o profeta que fala na leitura de hoje. É uma pessoa serena e sem preconceitos, tem um olhar que se abre para além dos horizontes limitados da tradição do seu povo; entende que chegou o momento de abandonar os exclusivismos e de pôr de lado as discriminações impostas pelo Deuteronómio, dá-se conta que já não têm sentido as barreiras que separam as pessoas: qualquer que seja a tribo, a raça ou a nação a que pertencem, todos são filhos do único Deus.

Esta é a sua promessa: virá o dia em que os estrangeiros que honram o Senhor e põem em prática os seus mandamentos serão acompanhados ao templo, e aí hão-de oferecer sacrifícios e elevar orações. Na casa de Deus ninguém será considerado estrangeiro. O templo, o lugar sagrado por excelência em Israel, será casa de oração para todos os povos (vv. 6-7).




SEGUNDA LEITURA

A leitura desenvolve o tema iniciado no domingo passado: o drama interior de Paulo que não consegue encontrar uma razão para a rejeição de Cristo por parte do seu povo.

O livro dos Actos dos Apóstolos esclarece-nos acerca do seu método apostólico: ia de cidade em cidade anunciando o Evangelho, antes de mais aos judeus; se estes se recusavam a acreditar, dirigia-se aos pagãos (Act 13, 46-48).

Passada uma dezena de anos, ele faz um balanço da sua obra missionária: salvo poucas excepções, os Israelitas não aderiram à fé em Cristo. Como se explica este facto?

No trecho de hoje, Paulo constata que a sua desobediência teve um efeito positivo: favoreceu a entrada dos pagãos na comunidade cristã; se os Judeus tivessem acreditado em massa, com a mentalidade estreita e exclusivista que tinham, com os preconceitos que ainda alimentavam para com os estrangeiros, dificilmente teriam permitido aos pagãos serem acolhidos plenamente na Igreja.

Então, Paulo tem uma intuição: a rejeição de Cristo por parte do seu povo não pode ser definitiva; um dia – está certo disso – também os Israelitas reconhecerão em Jesus o Messias anunciado pelos profetas. Que acontecerá então? O Apóstolo deixa correr a sua alegria: se a sua desobediência foi providencial, o que não acontecerá então quando também eles se tornarem discípulos! Será uma autêntica ressurreição dos mortos (v. 15).




EVANGELHO

Contavam os rabis que um agricultor plantara no seu campo todo o tipo de árvores, e cultivara-as com zelo; esperou durante muitas Primaveras e muitos Verões, mas ficou desiludido: mui-
tas folhas, algumas flores, mas nenhum fruto. Estava para lançar fogo ao campo quando, num ramo pouco à vista, viu uma romã. Colheu-a e provou-a: era deliciosa. Por amor desta romã – exclamou, feliz – deixarei viver todas as outras árvores do meu quintal. Da mesma forma – concluíam os rabis – por amor de Israel, Deus salvará o mundo.

Mas nem todos os judeus partilhavam a abertura mental destes rabis iluminados. A maioria considerava que uma só era a estirpe eleita e santa, e que os pagãos deviam ser evitados como impuros (Act 10).

Foi com este exclusivismo que teve que se confrontar a primeira comunidade cristã nascida, como um rebento frondoso, do tronco de Israel. Os cristãos interrogavam-se: a salvação é para todos os povos ou está reservada para os filhos de Abraão? Surgiram desacordos, dissabores, duros conflitos que dividiram a Igreja (1Cor 1, 10-12; Gl 2, 11-14). Alguns defendiam que o Evangelho devia ser anunciado apenas aos israelitas e, para dar valor à sua tese, referiam o comportamento de Jesus que, durante a sua vida pública, tinha conduzido a sua missão dentro dos limites da Palestina; lembravam também a sua recomendação: «Não sigais pelo caminho dos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos; ide, primeiramente, às ovelhas perdidas da casa de Israel» (Mt 10, 5-6).

Outros cultivavam ideias mais abertas, convictos de que o Evangelho devia ser anunciado antes de mais aos Israelitas – os primeiros destinatários da salvação (Mt 22, 1-6) – mas que depois também os pagãos deviam ser admitidos na sala do banquete do Reino de Deus (Mt 22, 8-10). Israel era «o primogénito» do Senhor (Eclo 36, 11) mas não «o unigénito»: Deus sempre tinha considerado seus filhos também os outros povos (Jr 3, 19). A ordem do Ressuscitado tinha sido inequívoca: «Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado» (Mt 28, 19-20).

Pelo pouco tempo de vida pública (talvez apenas três anos), Jesus tinha limitado a sua missão «às ovelhas perdidas da casa de Israel»; mas tinha realizado também gestos claros para indicar que a salvação era para todos os povos. O episódio narrado no Evangelho de hoje é um dos mais significativos e reveladores a este respeito.

 

Um dia, apresenta-se a Jesus uma estrangeira. Vem da região de Tiro e Sidónia e «começou a gritar» implorando a cura da sua filha. O texto diz que é «cananeia», pertence, portanto, a um povo inimigo, um povo perigoso que, várias vezes, seduziu Israel, fê-lo desviar-se da verdadeira fé e induziu-o a adorar Baal e Astarté.

Os discípulos de Jesus – israelitas educados no mais rigoroso integralismo religioso – ficam surpreendidos com o descaramento desta pagã intrometida que ousa dirigir-se ao seu mestre, e aguardam a sua reacção: irá respeitar as normas vigentes que proíbem que se detenha a falar com estrangeiras ou – como já tinha feito outras vezes – irá romper os esquemas tradicionais?

O evangelista refere o diálogo entre Jesus e a mulher, parecendo quase satisfeito ao sublinhar o tom cada vez mais duro das respostas do Mestre. Perante o pedido de ajuda da mulher, Jesus assume uma atitude de desprezo: não se digna sequer olhá-la, não lhe dirige sequer a palavra (v. 23). Intervêm então os Apóstolos que, incomodados, querem resolver o mais depressa possível uma situação que começa a tornar-se embaraçosa. Pedem-lhe que a afaste. «Atende-a» – como diz o nosso texto – não é uma tradução correcta. «Manda-a embora!» – é o que eles de facto pedem.

Jesus parece seguir o seu conselho, torna-se mais severo e explica: «não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel» (v. 24).

A imagem do rebanho disperso está presente, muitas vezes, no Antigo Testamento: «as minhas ovelhas vagueiam por toda a parte e ninguém se preocupa nem as vai procurar» – diz Ezequiel (34, 6) – e acrescenta outro profeta: «todos nós andávamos desgarrados como ovelhas perdidas, cada um seguindo o seu caminho» (Is 53, 6). Há depois a promessa de Deus: «Eu mesmo cuidarei das minhas ovelhas e me interessarei por elas. Procurarei aquela que estiver perdida, reconduzirei a que estiver tresmalhada; cuidarei da que está ferida e tratarei a que está doente, vigiarei sobre a que está gorda e forte; a todas apascentarei com justiça» (Ez 34, 11.16).

Mas foi apenas com os israelitas que o Senhor se comprometeu, é só por eles que se deve interessar. Apresentando-se como o pastor de Israel, Jesus declara querer realizar as profecias, e a mulher entende. Sabe que não é do povo eleito, está consciente de não pertencer ao «rebanho do Senhor» e de não ter qualquer direito à salvação; no entanto, confia na benevolência e na gratuidade das intervenções de Deus, e prostra-se diante de Jesus implorando: «Socorre-me, Senhor.»

Como resposta, recebe uma ofensa: «Não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos» (v. 26).

Os Israelitas são o rebanho, os pagãos são os cães. O uso do diminutivo atenua, mas não muito, a rudeza do insulto. O termo «cão» era, em todo o Médio Oriente antigo, a injúria mais pesada, a alcunha com que os Hebreus designavam os pagãos. Uma imagem crua, usada em vários textos do Novo Testamento: «Não deis as coisas santas aos cães nem lanceis as vossas pérolas aos porcos» (Mt 7, 6). «Fora os cães» (Ap 22, 15). «Cuidado com esses cães» (Fl 3, 2). Uma imagem que era usada para pôr em relevo a incompatibilidade absoluta entre a vida pagã e a escolha evangélica.

Surpreende encontrar esta expressão na boca de Jesus, sobretudo tendo em conta que a mulher cananeia se dirigiu a Ele com grande respeito: por três vezes lhe chamou «Senhor» – título com que os cristãos professavam a sua fé no Ressuscitado – e uma vez «Filho de David», que equivale a reconhecê-lo como messias. Parece que, como acontece com os seus compatriotas, também Jesus abomina os estrangeiros. Será assim?

A conclusão do relato diz tudo. «Mulher – exclama Jesus – grande é a tua fé!» Um elogio que nunca dirigiu a um israelita.

Agora tudo se torna claro. Aquilo que precede – a provocação, o desprezo pelos pagãos, a lembrança da sua impureza e indignidade – não era senão uma encenação. Jesus queria que os seus discípulos modificassem radicalmente o modo de se relacionarem com os estrangeiros. Recitou «o seu papel» de israelita íntegro e puro para mostrar quanto era insensata e ridícula a mentalidade separatista cultivada pelo seu povo. Enquanto «as ovelhas do rebanho» ficavam longe do pastor que as queria reunir (Mt 27, 37), os «cães» vinham ter com Ele e, pela sua grande fé, obtinham a salvação.

A mensagem é muito actual: a Igreja é chamada a ser sinal de que acabaram todas as discriminações determinadas pelo sexo, por pertencer a uma raça, a um povo ou a uma instituição. «Todos vós sois filhos de Deus em Cristo Jesus mediante a fé – diz Paulo –, pois todos os que fostes baptizados em Cristo revestiste-vos de Cristo mediante a fé. Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem e mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus. E se sois de Cristo, sois então descendentes de Abraão, herdeiros segundo a promessa» (Gl 3, 26-29).

A mulher cananeia – a pagã, a que não acreditava – é indicada como modelo do verdadeiro crente: sabe que não merece nada, acredita que somente da palavra de Cristo pode chegar gratuitamente a salvação; então implora-a e recebe-a como dom.

Fonte: O Banquete da Palavra / Fernando Armellini : Paulinas Editora

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Leitura I:
Is 56, 1.6-7
Salmo:
Salmo 66 (67), 2-3.5.6.8 (R. 4)
Leitura II:
Rom 11, 13-15.29-32
Evangelho:
Mt 15, 21-28
Liturgia das Horas:
Domingo IV
Terço do Rosário:
Mistérios Gloriosos

 

   
 


Última actualização: 2010-12-01 00:00:00

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