V DOMINGO DA QUARESMA - O Sepulcro: Um Seio, já Não Um Túmulo «Quando os deuses formaram a humanidade, atribuíram a morte à humanidade e ficaram com a vida nas suas mãos». São as palavras que – na célebre epopeia mesopotâmica * – a taberneira Siduri dirige a Gilgamesh, que se encontra numa busca desesperada da árvore da vida. Desconsolado, o herói entende que se deve re-signar: morrer é partir para o «país sem regresso».
Trevas, silêncio e olvido preenchem a morada dos mortos também na concepção hebraica.
É difícil encontrar no Antigo Testamento alguma referência à hipótese da imortalidade da alma e à ressurreição dos mortos, e certamente aqueles poucos textos não foram escritos antes do século ii a.C.
Job afirmava: «Para a árvore há uma esperança: cortada, ao contacto com a água reverdecerá e deitará ramos como uma planta nova. Mas o homem, ao morrer, acaba. As águas poderão desaparecer do mar, e um rio esgotar-se e secar. Mas o homem que morre nunca mais se levanta; enquanto durarem os céus não despertará, nem sairá do sono» (Job 14, 7-12). Este desconforto acabava numa elegia para o salmista: «De poucos palmos fizeste os meus dias; o homem não é mais do que um sopro. Ele passa como simples sombra. Desvia de mim os olhos, para que eu possa respirar antes que tenha de partir, e acabe a minha existência» (Sl 39, 6-7.14).
Era desta forma que os espíritos mais iluminados da Antiguidade exprimiam a sua desilusão, a sua angústia, a sua desorientação perante a caducidade da vida. A Bíblia conservou a lembrança do seu desassossego para nos lembrar como eram densas as trevas do túmulo, antes que no mundo resplandecesse a luz da Páscoa.
Para interiorizar a mensagem, repetiremos: - Quando atravessar um vale tenebroso não temerei nenhum mal, porque Tu, Senhor da vida, estás comigo.
PRIMEIRA LEITURAEntre os Israelitas deportados para a Babilónia, em 597 a.C., está também um sacerdote, Ezequiel, que irá tornar-se o profeta do povo no exílio. «No ano décimo segundo do nosso cativeiro, no dia cinco do décimo mês» chega até ele, ofegante, um fugitivo vindo de Jerusalém e diz-lhe: a cidade caiu (Ez 33, 21). Quatro meses antes tinha sido tomada e incendiada pelos soldados de Nabucodonosor; tinham capturado um novo grupo de prisioneiros, mais numeroso do que o anterior, destinado a engrossar as fileiras do que já se encontrava na Mesopotâmia. Ezequiel desenvolve a sua actividade de profeta entre estes deportados que, derrotados e amargurados, repetem: «Os nossos ossos estão completamente ressequidos, a nossa esperança desvaneceu-se; ficámos reduzidos a isto» (Ez 37, 11). Sentem-se como cadáveres sem vida, pior ainda, como esqueletos ressequidos, corroídos, consumidos pelos muitos anos passados no túmulo do exílio.
Então está tudo acabado? As promessas de bênçãos feitas a Abraão foram anuladas devido aos pecados do povo? Não há dúvida de que ninguém mais poderá voltar a dar vida a Israel, reduzido a uma vastidão de ossos áridos, espalhados ao longo da planície e nos vales do país dos dois rios (Ez 37, 1-3).
Neste contexto histórico, Ezequiel anuncia o prodígio inaudito que o Senhor está para fazer: Deus dará vida àqueles ossos ressequidos, ressuscitará os Israelitas para uma vida nova, abrirá os sepulcros onde foram depositados, fará com que saiam dos seus túmulos para os reconduzir à sua terra (vv. 12.13).
Esta profecia não se referia à ressurreição dos mortos na forma como a entendemos nós, mas ao regresso dos deportados à pátria. Todavia, nos séculos seguintes, ela foi objecto de estudo e de reflexão por parte dos rabis, adquiriu grande importância e contribuiu para fazer nascer a ideia de que, com a vinda do messias, todos os justos voltariam à vida para participarem na glória do novo Reino.
Onde quer que entre o Espírito do Senhor, lá chega a vida. Aconteceu no início do mundo quando Deus, depois de ter plasmado o homem com o pó da terra, lhe insuflou pelas narinas o sopro da vida e o homem tornou-se um ser vivo (Gn 2, 7). Este Espírito de vida continua a operar ainda hoje em todas as situações de morte: onde há ódios e rancores atávicos entre os povos, incompreensões e litígios familiares, divisões na comunidade. Nada é irrecuperável para o Espírito do Senhor, ele pode recompor e dar vida até mesmo aos ossos ressequidos.
SEGUNDA LEITURATodas as pessoas morrem. A vida biológica que têm em comum com os animais não dura sempre. Também Jesus, sendo homem como nós, morreu, tinha que morrer. Porém ressuscitou. Porquê? O que fez com que Ele ressuscitasse?
Na leitura de hoje, Paulo responde: Ele possuía em plenitude o Espírito de Deus, ou seja, tinha em si a vida de Deus que não pode morrer.
A vida do homem tem um início e um fim, a vida de Deus não, Ele não nasceu e não morre. Jesus tinha em si esta vida divina, e quando um dia se concluiu para Ele esta vida material, o espírito de Deus fê-lo ressuscitar, introduziu-o na glória do Pai.
Paulo prossegue: também nós, que recebemos no Baptismo este mesmo Espírito, esta mesma vida, já não podemos morrer. A nossa vida neste mundo terminará, mas não será o fim de tudo, o Espírito que ressuscitou Jesus e que habita em nós dará vida eterna aos nossos corpos mortais.
EVANGELHOO relato da reanimação de Lázaro é muito longo e, no entanto, a parte dedicada ao milagre propriamente dito é extremamente breve, são apenas dois versículos (vv. 43-44); tudo o resto é uma série de diálogos que têm como finalidade introduzir o leitor no nível mais profundo do texto, onde é possível entender o verdadeiro significado do sinal operado por Jesus.
Falei de reanimação de Lázaro, e não de ressurreição, porque uma coisa é voltar a este mundo, retomar esta vida material marcada ainda pela morte; outra coisa é deixar definitivamente esta vida e, como aconteceu com Jesus na Páscoa, entrar no mundo de Deus, onde a morte, nenhum tipo de morte, tem acesso. Trazer de novo a este mundo significa reanimar, conduzir ao outro significa ressuscitar.
Tendo em conta esta clarificação, vejamos então o trecho, começando por notar algumas incongruências e detalhes pouco verosímeis. Numa página de jornal, onde a notícia deve ser referida da forma mais fiel possível, isto seria motivo de surpresa; pelo contrário, no Evangelho de João constituem indícios, preciosos: são uma orientação para a mensagem teológica do relato. Tento enumerá-los.
– Nos primeiros versículos (1-3), aparece uma família algo estranha. Não há pais, não se fala de maridos, de mulheres, de filhos, mas apenas de irmãos e irmãs.
– No versículo 6, é referido um comportamento inexplicável de Jesus: toma conhecimento de que Lázaro está mal e, em vez de o ir curar, fica onde está mais dois dias; parece mesmo querer deixá-lo morrer. Porque não intervém?
– Pouco depois, faz uma afirmação desconcertante: «Lázaro morreu; por vossa causa, alegro-me por não ter estado lá» (v. 15). Como pode alegrar-se por não ter impedido a morte do amigo?
– Naquele tempo não havia telefones; como soube Marta que Jesus estava a chegar (v. 17)? E, enquanto ela vai chamar Maria (v. 28), o que fica Jesus a fazer ali parado na estrada? Porque espera que Maria saia de Betânia e vá ter com Ele? Nós não teríamos feito assim, iríamos imediatamente a casa do defunto para apresentar condolências.
– Nos versículos 25-26, é utilizada por Jesus uma frase nada fácil de interpretar: «Quem acredita em mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em mim, nunca morrerá.» Como pode Ele prometer que o seu discípulo nunca morrerá, quando nós constatamos que os cristãos morrem como todos os outros? Que pretende dizer?
– No versículo 35, refere-se que Jesus chora pela morte do amigo. Como se explica este seu comportamento se já sabe que o vai ressuscitar? Está a fingir?
– Depois deste episódio, a família de Betânia desaparece, sem deixar rasto, do Evangelho de João, e nunca mais aparece em nenhum outro texto do Novo Testamento. Onde foram parar estas três pessoas tão estimadas por Jesus?
É estranho também que um milagre tão clamoroso não seja nem sequer mencionado pelos outros evangelistas.
Estes pormenores são o sinal inequívoco de que João não quis dar aos seus leitores um relato frio de um facto, mas um trecho de teologia. Partindo de uma cura que tinha suscitado grande impressão pelo facto de o doente ter sido dado como morto, o evangelista trata o tema central da mensagem cristã: Jesus, o Ressuscitado, é o Senhor da vida.
Comecemos pelo significado que João quer dar à família de Betânia, composta apenas por irmãos e irmãs. Representa a comunidade cristã onde não são admitidos nem superiores nem inferiores, mas somente irmãos e irmãs. Há um intenso clima afectivo que une estas pessoas a Jesus. O evangelista sublinha com insistência a amizade do Mestre com Lázaro (vv. 3.5.11.36). É o símbolo da ligação profunda entre Jesus e cada discípulo: «Já não vos chamo servos – dirá durante a última ceia –, mas a vós chamei-vos amigos» (Jo 15, 15).
Nesta comunidade acontece um facto que desconcerta, que coloca perante um enigma insolúvel: a morte de um irmão. Que resposta dá Jesus ao discípulo que lhe pergunta se este trágico acontecimento pode fazer algum sentido? Quem ama um amigo não o deixa morrer. Se era amigo de Lázaro e se é nosso amigo, por que motivo não impede a morte?
Como Marta e Maria, também nós não compreendemos porque «deixe passar dois dias». Dele esperaríamos, como sinal do seu amor, uma intervenção imediata. A censura velada que lhe dirigem as duas irmãs é também nossa: «Se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido» (vv. 21.32).
A morte de uma pessoa querida, a nossa própria morte, fazem surgir a dúvida de que Ele «não esteja aqui», não nos acompanhe com o seu amor.
Deixando morrer Lázaro, Jesus responde a estas questões: Ele não tem a intenção de impedir a morte biológica, não quer interferir no decurso natural da vida. Ele não veio para tornar eterna esta forma de vida, mas para nos levar àquela que não terá fim. A vida neste mundo está destinada a uma conclusão, é bem que termine.
Nesta perspectiva deveria ser reconsiderada a validade da relação que muitos cristãos instauraram com Cristo e com a religião. Quando esta se reduz a contínuos e insistentes pedidos de intervenções prodigiosas, desemboca inevitavelmente em crises de fé e na dúvida de que «Ele não esteja aqui», onde nós esperaríamos que estivesse, onde nós mais precisamos dele, na doença, na dor, na desventura.
O diálogo com os discípulos (vv. 7-16) serve ao evangelista para pôr na boca deles as nossas incertezas e medos perante a morte. É a reacção da pessoa que teme que a morte marque o fim de tudo.
Este medo é para o discípulo o inimigo mais subtil e enganador. Quem teme a morte não pode viver como cristão. Ser discípulo significa aceitar perder a vida, doá-la por amor, morrer como o grão de trigo que somente quando é posto na terra dá muito fruto (Jo 12, 24-28).
Nas palavras de Jesus, a morte é apresentada na perspectiva justa. Ele afirma estar contente por não ter impedido a do amigo Lázaro (v. 15) porque para Ele a morte não é um acontecimento mau, destrutivo, irreparável, mas marca o início de uma condição infinitamente melhor do que a anterior.
E chegamos assim à parte central do trecho, o diálogo com Marta (vv. 17-27).
Lázaro está já, há quatro dias, no sepulcro. Naquele tempo considerava-se que nos primeiros três dias a pessoa não estava completamente morta. Só ao quarto dia a vida a abandonava definitivamente. João não nos quer informar acerca da data exacta do falecimento, quer apenas dizer-nos que Lázaro está morto. É a premissa necessária à pergunta a que pretende dar uma resposta: o que pode fazer Jesus por quem está realmente e definitivamente morto?
No diálogo que se segue, Jesus leva Marta a entender qual o sentido da morte de um discípulo (de um irmão da comunidade cristã).
«Se tivesses estado aqui» é a declaração de rendição do homem perante um acontecimento que o supera, que ignora os seus esforços para o afastar. É também a expressão da dúvida de que Deus esteja ausente na morte. Se Deus existe, porquê a morte?
Marta pertence ao grupo daqueles que, ao contrário dos saduceus, acreditam na ressurreição dos mortos. Está convencida de que, no fim do mundo, o seu irmão Lázaro voltará à vida juntamente com todos os justos, e tomará parte no Reino de Deus.
Este seu modo de entender a ressurreição (e que é talvez semelhante ao de muitos cristãos dos nossos dias) não consola ninguém. Está muito distante e não faz sentido. Por que motivo Deus tem que fazer com que se morra para depois trazer de novo à vida? Porquê esperar tanto? E como pode a alma permanecer sem o corpo? E, para mais, este tipo de ressurreição é pouco credível: se uma pessoa morre, Deus poderia certamente voltar a criá-la, mas nesse caso criaria um clone, não a pessoa que existia antes.
O cristão não acredita numa morte e depois numa ressurreição que acontecerá no fim do mundo. O cristão acredita que o homem redimido por Cristo não morre.
Procuremos entender esta mensagem, nova e extraordinária, que Jesus anuncia a Marta. Ele declara: «Quem acredita em mim nunca morrerá» (v. 26). Que significam estas palavras? Como pode não morrer uma pessoa que nós vemos expirar e tornar-se cadáver? Para explicarmos isto é necessário recorrermos a uma comparação.
Toda a nossa existência é caracterizada por saídas e entradas: saímos do nada e entramos no seio da nossa mãe. Completada a gestação, saímos para entrar neste mundo, caracterizado por muitos sinais de morte. São formas de morte a solidão, o abandono, o afastamento, a traição, a ignorância, a doença, a dor. A nossa vida aqui nunca está completa, está sempre sujeita a limitações. Não pode ser este o mundo definitivo, o nosso destino final, para vivermos em plenitude e sem morte temos que sair daqui.
Vamos supor que no seio de uma mãe há dois gémeos que podem ver, entender, falar um com o outro durante os nove meses da gestação. Eles conhecem apenas o seu pequeno mundo e não imaginam como possa ser a vida fora desse ambiente. Não sabem que as pessoas casam, trabalham, viajam, não têm ideia de que existam animais, plantas, flores, praias. Conhecem apenas a forma de vida que experimentam.
Passados nove meses nasce o primeiro gémeo. O que ficou ainda por um breve tempo no ventre da mãe pensa: «Meu irmão morreu, já não existe, desapareceu, deixou-me»... e chora. Porém, o irmão não morreu. Deixou apenas uma vida limitada, breve e entrou noutra forma de vida.
O discípulo – explica Jesus a Marta – de facto não experimenta a morte, ele nasce para uma nova forma de vida, entra no mundo de Deus, toma parte numa vida que deixa de estar sujeita aos limites e às mortes, como acontece quando está ainda nesta terra. É uma vida sem fim. Mais que isto não podemos dizer porque, se a descrevêssemos, não faríamos mais do que projectar as formas que conhecemos desta nossa vida. Permanece uma surpresa, que Deus reserva para nós: «O que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram, o coração do homem não pressentiu, isso Deus preparou para aqueles que o amam» (1Cor 2, 9).
Na perspectiva cristã, portanto, a vida neste mundo é uma gestação, e a morte é vista por quem fica, não por quem morre.
Então podemos compreender por que motivo Jesus se alegra por não ter impedido a morte de Lázaro. Ele vê-a na óptica de Deus: como o momento mais importante e mais feliz para o homem. Com uma expressão muito justa, os cristãos chamavam «dia do nascimento» àquele que para as outras pessoas era o dia funesto em que mergulhavam no nada.
É celebre a frase de Lao-Tsé: «Aquilo que para a larva é o fim do mundo, para o resto do mundo é uma borboleta.» A larva não morre: desaparece como larva, mas continua a viver como borboleta. É outra imagem que nos ajuda a entender a vitória de Cristo sobre a morte.
Depois de ter escutado as palavras de Jesus, Marta pronuncia uma linda profissão de fé; reconhece que Jesus é aquele que dá esta vida: «Acredito, Senhor, que Tu és o Messias, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo» (v. 27).
Não nos vamos debruçar sobre o diálogo entre Jesus e Maria (vv. 28-33) porque não acrescenta nada de novo ao que já dissemos. Notemos apenas que Jesus não entra em Betânia, onde os judeus foram consolar as irmãs. Ele não veio para apresentar condolências, mas para dar a vida, e quer que também Maria saia da casa onde todos estão a chorar. O seu sobressalto – «e Jesus chorou» – mostra como também Ele sente profundamente, como qualquer outra pessoa, o drama da morte.
A cena conclusiva (vv. 34-42) é importante.
Tem início com o choro de Jesus. O cristão não pode dizer-se tal se não acreditar que a morte é um nascimento, porém não é insensível e não deixar de chorar quando um amigo o deixa. Sabe que não morreu, fica feliz porque ele vive com Deus, mas está triste porque, por algum tempo, terá que ficar separado dele.
Porém, há dois modos de chorar: o choro inconsolável e descomposto de quem está convencido de que, com a morte, tudo acabou; e o choro de Jesus, que diante do túmulo não pôde conter as lágrimas. Estas duas formas de chorar são expressas no texto grego com dois verbos diferentes. Para Maria, Marta e os judeus é usado o verbo klaiein (v. 33) que indica o choro acompanhado por gestos de desespero; pelo contrário, de Jesus diz-se edákrusen, que significa: «as lágrimas começaram a escorrer-lhe dos olhos» (v. 35). Somente este choro sereno, digno, é cristão.
Ao choro segue-se uma ordem: «Tirai a pedra.» É dirigida à comunidade cristã e a todos aqueles que ainda pensam que o mundo dos defuntos esteja separado e não comunique com o dos vivos. Quem acredita no Ressuscitado sabe que todos estão vivos, mesmo que participem de duas formas de vida diferentes. Todas as barreiras foram abatidas, todas as pedras foram removidas no dia de Páscoa; agora passa-se de um mundo ao outro sem morrer.
A oração que Jesus dirige ao Pai (vv. 41-42) não é o pedido de um milagre, mas de uma luz para as pessoas que ali estão. Pede que todos possam entender o significado profundo do sinal que está para realizar e que acreditem nele, Senhor da vida.
O grito: «Lázaro, sai para fora», é a realização da sua profecia: «Chega a hora – e é já – em que os mortos hão-de ouvir a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão. Todos os que estão nos túmulos hão-de ouvir a sua voz e sairão» (Jo 5, 25-29). De facto, «o morto», com todos os sinais que caracterizam a sua condição, «as mãos e os pés enfaixados com ligaduras e o rosto envolvido num sudário» (v. 44) sai. «O morto» – diz o texto. Sim, porque é com o morto, com quem está e permanece definitivamente morto (está há quatro dias no sepulcro) que Jesus mostra o seu poder vivificante: não trazendo-o de novo para cá (seria uma vitória efémera, não definitiva sobre a morte), mas levando-o consigo para a glória de Deus.
«Desligai-o e deixai-o ir» (v. 44) – ordena por fim. O convite é dirigido aos irmãos da comunidade que choram a perda de uma pessoa querida. Deixai que «o morto» viva feliz na sua nova condição. O vidente do Apocalipse descreve-a com imagens sugestivas: «Deus enxugará todas as lágrimas dos seus olhos; e não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor. Porque as primeiras coisas passaram» (Ap 21, 4).
Há muitas formas de tentar deter o defunto: visitas obsessivas ao cemitério (que é como procurar entre os mortos aquele que está vivo), o apego morboso a objectos pessoais, o recurso a médiuns para estabelecer contactos... É doloroso ter sido deixado por um amigo, mas é egoísta querer detê-lo, seria como impedir a uma criança de nascer. «Desliga-o, deixa-o ir» – repete hoje Jesus, com doçura, a cada um dos seus discípulos que não se resigna com a passagem de um irmão ou de uma irmã. |