VI DOMINGO DA PÁSCOA - Sem o Espírito, o Evangelho É Apenas Uma Doutrina Estamos habituados a imaginar o Espírito como algo invisível, intangível, algo que é completamente oposto àquilo que é material, porém este modo de o entender não tem um fundamento bíblico. O Espírito é muito real, é uma aragem, um sopro forte. Deus é Espírito na medida em que nele existe uma força arrebatadora e imparável semelhante ao vento impetuoso.
O sonho do homem é poder participar deste Espírito.
Os rabis ensinavam que no homem existem duas inclinações: uma má que nasce no momento da concepção, e uma boa que se manifesta apenas pelos treze anos. A inclinação má exercita o seu poder desde o embrião e pode dominar o homem até ao setenta ou mesmo aos oitenta anos. Como resistir-lhe?
Os rabis davam esta sugestão: «Deus criou a inclinação má e a Tora, a Lei, como antídoto a ela. Interessai-vos pela Tora e não caireis em seu poder». «Se uma tentação desprezível vier ao vosso encontro, arrastai-a até à casa onde se estuda a Tora». «Quando vos interessais pela Tora a vossa inclinação má fica em vosso poder, e não vós em poder do mal.»
Enganavam-se. A Tora é como um sinal: indica a direcção justa, mas não move o carro. Este precisa de uma força motora que o leve ao seu destino.
Jesus não ensinou apenas «o caminho», comunicou também o seu Espírito, a sua força para atingir a meta.
Para interiorizar a mensagem, repetiremos: - Cria em nós, Senhor, um coração novo, infunde em nós o teu Espírito Santo.
PRIMEIRA LEITURADurante cinco ou seis anos após a morte de Jesus, a Igreja não se difundiu para além da cidade de Jerusalém. Os Apóstolos não tinham compreendido ainda que o Evangelho devia ser anunciado a todo o mundo. Esta abertura universalista foi provocada por um acontecimento dramático: a perseguição que se desencadeou contra a jovem comunidade depois da morte de Estêvão (Act 8, 1-4); esta perseguição não atingiu indistintamente todos os cristãos, mas apenas o grupo dos helenistas de quem falámos no domingo passado. Os hebreus-cristãos e os próprios Apóstolos foram deixados em paz; os Judeus consideravam que com estes era ainda possível entender-se, já que se mostravam respeitosos e fiéis à lei de Moisés e às tradições. Eram os helenistas que constituíam um perigo para a estrutura religiosa judaica.
Os cristãos perseguidos fugiram de Jerusalém e dispersaram-se por todas as cidades da Palestina, alguns refugiaram-se em casa de parentes ou amigos residentes no estrangeiro, na Síria ou noutras províncias do Império Romano.
Onde chegavam, estes fugitivos anunciavam aos irmãos judeus a boa nova da Ressurreição de Cristo. Em Antioquia, houve alguém que começou a falar de Jesus também aos pagãos. Foi o início de uma nova era para a Igreja, que deixou de estar ligada unicamente a Israel e começou a abrir-se aos outros povos, àqueles que não eram descendentes de Abraão.
A leitura de hoje conta o que aconteceu a Filipe.
Já no domingo passado se falara dele, era um dos sete que tinham sido escolhidos para servir os pobres, portanto, um helenista
que, para não acabar como Estêvão, se tinha dirigido para norte e, chegado à Samaria, tinha começado a pregar o Evangelho e a baptizar os que aderiam à fé.
O Espírito acompanhava a obra deste primeiro missionário dando força às suas palavras e confirmando o seu anúncio com sinais. A vida das pessoas daquela cidade mudou radicalmente e todos ficaram cheios de alegria (vv. 5-8).
A segunda parte da leitura (vv. 14-17) põe em cena os Apóstolos Pedro e João, que vão visitar os baptizados da Samaria. Esta visita nasce da necessidade de manter unidas à Igreja-mãe de Jerusalém as novas comunidades que começam a surgir. À sua chegada, os dois Apóstolos impõem as mãos aos novos cristãos para lhes comunicar o Espírito.
Mas, então, como é possível que os samaritanos, baptizados por Filipe, não tenham recebido já o Espírito? Este dom não é dado precisamente pelo Baptismo?
Sem dúvida. Os samaritanos tinham recebido o Espírito no momento do Baptismo. Todavia, esta presença divina neles não tinha provocado as extraordinárias manifestações exteriores que se verificavam habitualmente nos primeiros tempos da Igreja. Lembremo- -las: os baptizados começavam a falar várias línguas, a profetizar, entravam em êxtase. Logo depois de terem recebido a imposição das mãos da parte de Pedro e de João, estes fenómenos aconteceram também entre os samaritanos.
Lucas refere este episódio para explicar que as novas comunidades surgiam por todo o lado, espontaneamente, onde era anunciado o Evangelho; mas estas não devem crescer, desenvolver-se e viver de forma completamente autónoma e independente. É necessário que estabeleçam laços de comunhão com a Igreja universal, e só então o Espírito se manifestará plenamente.
SEGUNDA LEITURADepois de ter referido o tema da escravidão, o pregador adverte que os seus ouvintes precisam de uma palavra de luz sobre a situação dolorosa que a comunidade vive. Explodiu como um incêndio a perseguição que, mais ou menos violenta, continuará durante cerca de duzentos e cinquenta anos. Os neófitos devem saber que os esperam tempos difíceis, não devem ficar surpreendidos como se isso fosse algo de imprevisto, inesperado, estranho (1Pd 4, 12). «Todos os que quiserem viver a fé em Cristo Jesus – garante também Paulo – serão perseguidos» (2Tm 3, 12). Como se devem comportar os discípulos com quem troça deles e ridiculariza a sua fé?
Antes de mais, são convidados a tomar consciência do facto que Cristo está com eles, acompanha-os, está no seu coração (v. 15). Não foi contra eles que se desencadeou o ódio, mas contra o Senhor.
Devem estar sempre prontos a responder a quem lhes pede o motivo da sua esperança. Por isso, a necessidade de fundamentar em bases sólidas, em convicções profundas a própria fé. É frágil, precária e incerta a fé que assenta em emoções passageiras, em intimismos devocioneiros, em entusiasmos milagrosos. Somente quando se baseia na palavra de Deus é que é firme, sólida, inabalável (Rm 10, 17). Quem a possui não tem dificuldade em justificá-la e demonstrar que ela conduz a escolhas de vida sérias, sábias, de confiança.
Pedro diz também como responder aos que não crêem.
Quer quando interrogados por cidadãos comuns quer quando são chamados a responder às autoridades, os cristãos devem evitar as palavras ofensivas, pouco respeitosas, irreverentes. A sua linguagem deve ser inspirada na «brandura e respeito, conservando uma boa consciência» (v. 16). A polémica, a agressividade, a violência verbal ajudam a levar a melhor numa discussão, mas não ajudam as pessoas a acolher a proposta evangélica, que é o único objectivo a que o discípulo deve mirar (vv. 16-17).
O trecho termina recordando o exemplo de Cristo: também Ele sofreu por ter praticado a justiça, os seus discípulos não podem esperar um destino diferente (Mt 10, 25).
EVANGELHOTambém o Evangelho de hoje, como acontecera com o de domingo passado, é tirado do primeiro dos três discursos de despedida pronunciados por Jesus durante a Última Ceia.
Os discípulos entenderam que Jesus está para os deixar, estão tristes e perguntam-se como continuar unidos a Ele e a amá-lo se Ele vai embora.
Jesus promete não os deixar sós, sem protecção e guia; diz que rezará ao Pai e Ele enviará «outro Paráclito» que estará sempre com eles (v. 16). É a promessa do dom daquele Espírito que Jesus possui em plenitude (Lc 4, 1.14.18) e que será efundido sobre os discípulos.
Jesus esclarece (vv. 15.17) que o Espírito só pode ser acolhido por quem está em sintonia com Ele, com os seus projectos, com as suas obras de amor. O mundo não o pode receber.
Quem é este mundo ao qual não está destinado o Espírito? Os pagãos, os distantes, quem não pertence ao grupo dos discípulos, os membros de outras religiões?
Para Jesus, o mundo não são as pessoas, mas aquela parte do coração do homem – de cada homem – onde reinam as trevas, o pecado, a morte. Onde se escondem ódios, concupiscências, paixões desregradas... ali está presente o mundo, com o seu espírito, oposto ao de Cristo. Lembra-o Paulo aos coríntios que se deixavam conduzir pela sabedoria dos homens: «Nós não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que vem de Deus» (1Cor 2, 12).
O Espírito recebe dois nomes. É chamado Paráclito e Espírito da verdade.
Paráclito é um termo proveniente da linguagem forense e indica aquele que é chamado a estar ao lado.
Antigamente não existia a instituição dos advogados; o imputado devia defender-se sozinho, procurando levar consigo testemunhas que o livrassem das acusações. Acontecia, por vezes, que alguém, mesmo não sendo culpado, não conseguisse provar a sua inocência ou então que, mesmo tendo cometido o crime, merecesse o perdão. Para uma pessoa nesta situação, havia uma última esperança: que no meio da assembleia houvesse um homem honrado por todos, pela sua integridade moral, e que este homem irrepreensível, sem pronunciar palavra, se levantasse e fosse pôr-se a seu lado. Este gesto equivalia a uma absolvição. Ninguém mais ousaria pedir a condenação. Este «defensor» era chamado... «paráclito», ou seja, «aquele que é chamado a estar ao lado de quem se encontra em dificuldade».
O sentido deste primeiro título é então de protector, defensor, aquele que socorre.
Jesus promete aos seus discípulos um outro paráclito, sem dúvida, porque já tinham tido um, Ele mesmo, como explica João na sua primeira carta: «Filhinhos meus, escrevo-vos estas coisas para que não pequeis; mas, se alguém pecar, temos junto do Pai um advogado (paráclito), Jesus Cristo, o Justo» (1Jo 2, 1).
Jesus é paráclito enquanto nosso advogado junto do Pai, não porque nos defende da sua ira, provocada pelas nossas culpas (o Pai está sempre do nosso lado, como Jesus), mas porque nos protege contra o nosso acusador, o nosso adversário, o pecado. É o pecado o inimigo, e Jesus sabe como confutá-lo, como o reduzir à impotência.
O segundo paráclito não tem a tarefa de substituir o primeiro, mas de desempenhar uma nova missão; é enviado juntamente com Jesus que «volta» para o meio dos seus (v. 18). Jesus não partiu, simplesmente mudou a forma da sua presença, que já não é aquela física mas a do Ressuscitado. É um modo novo de estar ao lado dos discípulos, infinitamente mais real – mesmo na sua invisibilidade – mais duradouro, mais ilimitado do que antes.
O Espírito é paráclito porque vem em socorro dos discípulos na sua luta contra o mundo, ou seja, as forças do mal (Jo 16, 7-11).
João lembra aos cristãos das suas comunidades estas verdades para que, no meio das dificuldades da vida, não se desencorajem, não desesperem, não percam a serenidade, a paz de coração, a alegria. O discípulo acredita na assistência do Espírito e não teme, não se deixa abater nem mesmo quando tem que admitir que nele existem ainda muitas misérias espirituais, fraquezas, más inclinações; está certo da força do Paráclito e sabe que não será vencido.
O segundo título – que enuncia outra função do Paráclito – é Espírito da verdade.
A sua obra ao serviço da verdade explica-se de várias formas.
Comecemos pela mais simples. Todo sabemos o que acontece quando uma notícia passa de boca em boca: fica sujeita a deformações, altera-se a ponto de se tornar irreconhecível.
A mensagem de Jesus é destinada a todas as pessoas, deve ser pregada até ao fim do mundo. Quem nos garante que não se irá corromper, que não irá sofrer interpretações desviantes? Humanamente parece ser uma empresa impossível; porém, temos a certeza que todos poderão ir à fonte pura do Evangelho porque na Igreja, encarregado de o anunciar, opera a força do Espírito da verdade prometido por Jesus.
O seu serviço à verdade não se limita a esta parte a que poderíamos chamar negativa. Ele não impede apenas que se introduzam erros na transmissão da mensagem de Cristo. Ele desempenha outra função, positiva: introduz os discípulos na plenitude da verdade.
Há verdades que Jesus não tratou explicitamente, ou que não desenvolveu em todos os pormenores porque os discípulos ainda não estavam em condições de as entender (Jo 16, 12-15). Ele sabia que, ao longo dos séculos, iriam surgir problemas e questões novas. Onde se poderiam encontrar respostas autênticas, conformes ao seu pensamento?
Também a este nível Jesus promete a intervenção do Espíri- to: Ele tem a tarefa de levar o discípulo à descoberta de toda a verdade. Não dirá nada de novo, ou de contrário em relação a Ele, ajudará a entender plenamente, até às suas últimas consequências, a sua mensagem.
Daqui nasce o dever de todos os cristãos de estarem abertos aos impulsos do Espírito que revela sempre coisas novas. Ele é, por natureza, aquele que renova a face da terra (Sl 104, 30).
É um pecado contra o Espírito (e muito grave! Cf. Mt 12, 31) opor-se ao renovamento, recusar as inovações que favorecem a vida da comunidade, que aproximam de Cristo e dos irmãos, que aumentam a alegria e a paz, que ajudam a rezar melhor, que libertam os corações de medos inúteis.
Quem permanece obstinadamente afeiçoado a tradições religiosas obsoletas e gastas, quem não se esforça diligentemente no estudo da palavra de Deus, quem não aceita a actualização de ritos, fórmulas, gestos litúrgicos, quem dá respostas velhas a problemas novos, quem não acolhe com alegria as descobertas da exegese bíblica, todos estes colocam-se em oposição ao Espírito da verdade.
O termo verdade tem para o evangelista João um significado ainda mais profundo: indica o próprio Deus que se manifesta em Jesus. Ele é a verdade (Jo 8, 44) porque nele se realiza a revelação total de Deus. Mentira seria recusá-lo, fazer uma escolha de vida contrária à sua. Satanás, o inimigo da verdade, o «pai da mentira» (Jo 8, 44), é tudo aquilo que afasta de Cristo.
O Espírito age de forma oposta: leva à «verdade», age no íntimo de cada pessoa e faz com que, livremente, a pessoa se incline a escolher Cristo, adira à sua proposta. É como um vento que eleva e arrasta para a salvação.
É difícil imaginar que o impulso deste Espírito não consiga levar cada pessoa à verdade. Então, como pode surgir em nós a dúvida que o mundo – presente ainda em cada um – pode ser mais forte do que este impulso divino para a vida? |