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"Por Cima dos Telhados"
2002-09-15 11:37:16

Lendo os documentos do Vaticano desde que os papas se interessaram pelo cinema e pela TV entende-se que a relação da Igreja pela imagem em movimento sempre foi ao mesmo tempo de atracção e repulsa: atracção pela eventual capacidade das imagens em multiplicar o número dos que têm acesso à palavra de Deus, repulsa pela dificuldade em afastar as imagens do nível literal dos sentidos, em «dar o salto» da percepção para a transcendência.

Uma coisa é dizer «Olhai para os lírios do campo» e transmitir um sentido metafórico através dessa imagem mental; outra coisa é mostrar essas flores: os espectadores vêem apenas lírios do campo.

Tornou-se difícil à Igreja - tão organizadora noutras coisas, tão profissional no uso da palavra, quer para as multidões, quer na especulação filosófica - transformar o cinema e a TV em instrumentos de evangelização. De forma continuada, tornou-se mesmo impossível.

Só em 1979 a Igreja portuguesa experimentou institucionalmente a TV como ferramenta ideológica. O «70x7» teve de evitar a doutrinação directa e o discurso abstracto. A equipa do programa, com o padre António Rego à frente, entendeu que o programa só resultaria se traduzisse a mensagem da Igreja em casos concretos, em entrevistas, na exibição de casos modelares. Como referiu Manuel Villas-Boas numa emissão do programa, tratava-se de evitar as grandes questões doutrinárias e de «falar por cima dos telhados», dando um sentido católico ao quotidiano.

E assim, sendo tarefa primordial da Igreja converter os pecadores, o padre Rego pôs em prática um programa que, disse ele mesmo, «não é para converter pessoas». É evidente que o programa pretende converter, mas, porque houve uma compreensão exacta das possibilidades da linguagem televisiva, converter de outra forma: não através do convencimento directo e do dedo apontado que chama o ímpio, mas da exibição do trabalho social da Igreja, da demonstração por novas formas de narrativa do que está certo e do que está errado, pelo convencimento dos espectadores de que há uma abertura da Igreja ao mundo.

Resultou? Tomando em conta a audiência, não se pode falar num êxito clamoroso; tomando em conta a persistência do programa, sim. É claro que se trata de um, apenas um programa, não de um canal de TV: seria difícil à Igreja, como se provou pela TVI inicial, transformar todas as imagens em mensagens suas. Mas, tendo em conta a forma como a televisão transforma um padre de sermão eficaz como é o padre João Seabra numa caricatura de exibição pesporrente (Canção Nova, sábados), o «70x7» é uma vitória saborosa para os seus autores.

Fonte Público

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