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  Quinta-feira, 2 de Setembro de 2010 - QUINTA-FEIRA da semana XXII    Orações Terço Via-Sacra Via Lucis
XXII DOMINGO DO TEMPO COMUM - É possível experimentar a alegria de DeusO Banquete da Palavra

Estamos numa casa de campo da alta burguesia de uma grande cidade do terceiro mundo, uma daquelas metrópoles onde a miséria é acompanhada pelo desperdício mais descarado.

No final da festa pelo vigésimo aniversário da filha – estudante universitária brilhante – os pais ordenam aos dois empregados domésticos que arrumem a sala.

Eis a surpresa: nas mesas está ainda uma enorme quantidade de carne, arroz, batatas fritas, tortas, bolinhos.

– Que fazemos com tudo isto? – pergunta embaraçado o marido. A esposa, que está a levar para a cozinha um tabuleiro cheio de copos para lavar, pára um instante, surpreendida, e depois, como quem se dá conta com atraso do erro cometido, diz: – Convidámos as pessoas erradas: gente que não tinha fome.

Temos medo de deixar que se aproxime de nós quem tem fome, tememos que nos possa empobrecer. E, no entanto, a festa da nossa vida poderia concluir-se com uma desilusão: encontrarmo-nos ainda com aqueles bens que o Senhor nos tinha dado para que com eles pudessemos «matar a fome» aos seus pobres.

«Felizes os convidados para o banquete das núpcias do Cordeiro!» – exclama o anjo do Apocalipse (Ap 19, 9). Mas naquela festa só poderá participar quem se privou de tudo para o dar a quem tinha fome.

Para interiorizar a mensagem, repetiremos:
- O pobre bate à minha porta para me oferecer a oportunidade de experimentar a alegria de Deus.



PRIMEIRA LEITURA

Para sermos humildes será talvez necessário procurar o desprezo das outras pessoas? Não seria sapiente, não faria sentido. Esta atitude não atrairia – pelo contrário, como assegura o Livro de Ben Sira – o amor das pessoas e a benevolência de Deus.

Qual é então o comportamento que atrai a simpatia das pessoas e o favor do Senhor? De que maneira os humildes lhe prestam «glória»? (v. 20).

Basta uma rápida verificação, uma simples introspecção para nos darmos conta de que tudo aquilo que somos é um presente de Deus. Dele provêm a vida, a beleza, a força, a inteligência, as qualidades que temos. Nada é nosso, de nada nos podemos vangloriar.

Não é maldoso, é apenas ridículo quem exibe os dons de Deus como se fossem seus. É insensato quem ostenta as qualidades que recebeu para se confrontar e para se impor às outras pessoas. Os dons de Deus foram-nos dados para que deles façamos dom aos irmãos.

Humilde é quem – bem consciente dos próprios dotes, aptidões, capacidades – se põe ao serviço de todos, considera as outras pessoas como os patrões que lhe podem pedir ajuda quando necessitarem.

A pessoa humilde mantém a cabeça inclinada, como quem está sempre pronta a receber ordens dos superiores. «Glorifica» a Deus, porque o que dá «glória» a Deus é a alegria do homem.

É a pessoa humilde quem estabelece relacionamentos que dão felicidade, que acabam com o egoísmo, com a competição, com a ostentação e introduz no mundo o princípio novo da troca gratuita dos dons de Deus.

É neste sentido que Jesus se definiu a si mesmo «manso e humilde de coração» (Mt 11, 29): doou-se por amor, totalmente e sem reservas.




SEGUNDA LEITURA

Os Hebreus que se tinham convertido ao cristianismo continuavam a ter uma certa nostalgia da religião dos seus pais. O autor da Carta procura iluminá-los fazendo um confronto entre a religião antiga, representada pelo monte Sinai, e a religião cristã, que tem como símbolo a nova Jerusalém.

O que aconteceu no Sinai? Houve línguas de fogo, trovões, escuridão, trevas. Perante um tal espectáculo, o povo teve medo e pediu a Moisés que fosse ele a falar e não o Senhor (vv. 18-19). Como se pode ter nostalgia de um Deus que não pode ser contactado senão através de intermediários?

Os cristãos – continua a leitura – não se aproximaram do monte Sinai para fazer experiências terrificantes de Deus (vv. 22). Aproximaram-se de Cristo. A experiência religiosa que fazem é totalmente diferente: é a da festa porque em Jesus descobrem o rosto do Deus amigo das pessoas (vv. 23-24). No Antigo Testamento havia muitos mediadores entre o Senhor e o povo: os sumos sacerdotes, os levitas, o sinédrio, os anciãos. Hoje, os cristãos sabem que podem dirigir-se directamente ao Pai, sem nenhuma reserva e sem medo. O único mediador é Cristo, que não procura servos, mas amigos (Jo 15, 15).




EVANGELHO

Em Israel, o almoço do sábado não se reduzia a uma simples refeição, era um banquete onde se encontravam parentes e amigos que conversavam sobre os mais variados argumentos. Discorria-se de trabalho, política, problemas familiares e sociais. Os temas religiosos, teológicos e morais eram tratados sobretudo quando havia um rabino entre os hóspedes. Os mestres e os doutores aproveitavam estes banquetes para expor as suas doutrinas. Também Jesus deu muitos dos seus ensinamentos à mesa (Lc 5, 29; 7, 36; 9, 17; 10, 38; 11, 37; 14; 19, 1; 22, 7-38).

O trecho de hoje deve ser colocado neste contexto de simpósio festivo. Estamos na casa de um fariseu, no final da liturgia na sinagoga e Jesus está entre os convidados (v. 1).

À mesa os convidados não se sentam ao acaso, é preciso respeitar uma etiqueta rígida, uma hierarquia. Os lugares são atribuídos com muita atenção: ao centro as pessoas importantes, ao lado destas o dono da casa e depois todos os outros, dispostos nas mesas considerando a sua posição social, a função religiosa que desempenham, a riqueza que possuem, a idade. Jesus acompanha com o seu olhar indiferente, e até talvez divertido, a distribuição dos lugares feita por um dos empregados domésticos, observa o embaraço de quem, talvez inadvertidamente, se pôs demasiado à frente e deve recuar algumas posições, vê a complacência mal disfarçada de quem se esquiva, mas por fim consente em ir ocupar um lugar mais central e prestigioso; nota as várias atitudes desajeitadas, os rubores, os embaraços. Introduz uma primeira parábola (vv. 7-11).

«Quando fores convidado para um banquete nupcial, não tomes o primeiro lugar... vai sentar-te no último lugar; e quando vier aquele que te convidou, dirá: “Amigo, sobe mais para cima”; ficarás então honrado aos olhos dos outros convidados.»

Este convite à esperteza destoa muito na boca de Jesus. É estranho que Ele desça ao ponto de sugerir um truque tão mesquinho para se ter sucesso em público e para satisfazer a própria vaidade. Além disso, o provérbio que cita é bem conhecido em Israel porque se encontra na Bíblia: «Não te louves na presença do rei, nem te ponhas no lugar dos grandes. É melhor que te digam: “sobe para aqui”, do que seres humilhado diante de um princípe» (Pr 25, 6-7). Rabbi Simeon, um contemporâneo dos apóstolos, recomendava ao seu discípulo: «Fica abaixo dois ou três lugares em relação ao que te diz respeito e espera que te digam: “Vem mais para cima!”... De facto, é melhor que ouças dizer: “Vem mais para cima! Vem mais para cima!”, do que “Vai mais para baixo! Vai mais para baixo!”». Jesus, portanto, não faz mais que lembrar uma prática recomendada por todos.

É verdade, as palavras são as mesmas, mas o conteúdo é diferente. Jesus não tem nenhuma intenção de tornar os seus discípulos uns espertalhões. Nunca se mostrou interessado em proporcionar-lhes sucessos na vida. Quando eles deixavam transparecer a ambição dos primeiros lugares, repreendia-os com severidade (Mc 9, 33-37). Proibia até mesmo que usassem títulos honoríficos (Mt 23, 8-10), não tolerava os «uniformes» que consagram e sacralizam as castas, ironizava acerca dos escribas «que sentem prazer em passear de túnicas compridas, e gostam de ser cumprimentados nas praças públicas, dos primeiros lugares nas sinagogas e dos primeiros assentos nos banquetes» (Lc 20, 46). Na sua boca, então, o provérbio não tem a finalidade de ensinar uma táctica de afirmação da própria pessoa. Vamos tentar entender.

 

Se relermos com atenção o trecho, verificamos que há uma palavra que aparece mais vezes do que as outras (seis vezes!), essa palavra é convidado-convidados. O termo grego do texto original deveria, porém, ser traduzido como chamado-chamados. É aos chamados que aspiram aos primeiros lugares que Jesus se quer dirigir. Devem ser então identificados.

Notamos um segundo detalhe: o modo como Jesus toma a palavra é, no mínimo, surpreendente. Não é assim que se intervém em casa de outra pessoa. Ele não fala como um hóspede, mas como o dono da casa.

Bastam estas duas simples observações para nos fazer intuir que a cena de Jesus em terra da Palestina é uma moldura artificial. Lucas serve-se dela para pôr na boca do Senhor uma lição aos chamados, ou seja, aos cristãos das suas comunidades. É nestas comunidades que, cada vez mais frequentemente, explodem desentendimentos e dissabores por questões de precedências. Os presbíteros, os responsáveis dos vários ministérios deixam-se tomar pela avidez de ocupar os «primeiros lugares». É o eterno problema da Igreja: todos deveriam servir, mas, na prática, há sempre quem aspire a títulos honoríficos, queira ter a primazia, quem se encha de orgulho e chegue a transformar até mesmo a Eucaristia numa ocasião de autocelebração. Este é o cancro que destrói as nossas comunidades!

Jesus sabia que iriam surgir muitas tensões entre os seus discípulos por causa do frenesim pelos primeiros lugares, e, por isso, durante a Última Ceia, quis lembrar de novo a lição. Queria que ficasse impressa na mente de todos como o seu testamento: «Quem é maior; o que está sentado à mesa ou o que serve? Não é o que está sentado à mesa? Ora, Eu estou no meio de vós como aquele que serve» (Lc 22, 26-27).

Jesus não pede – como fazia Rabbi Simeon – para recuar dois ou três lugares, mas para inverter as posições, para virar a escala de valores. Só quem escolhe, como fez Ele, o lugar do servo, será exaltado durante o último banquete que conta, o do reino de Deus. Para quem na terra exibiu vaidades, recebeu reverências e honras, aquele momento será dramático: ver-se-á relegado para o último lugar, sinal do fracasso da sua vida, demonstração de que os valores em que apostou eram efémeros e caducos.

 

Depois de ter contado a parábola, Jesus dirige-se ao fariseu que o tinha convidado: «Quando ofereceres um almoço ou um jantar, não convides os teus amigos nem os teus irmãos, nem os teus parentes nem os teus vizinhos ricos...» (v. 12). Eu não diria que o clima que se criou à mesa seja dos melhores: Jesus está a implicar um pouco com toda a gente. Que culpa tem aquele pobre fariseu se, em Israel, a tradição impõe que se convidem apenas quatro categorias de pessoas: os amigos, os irmãos, os parentes e os vizi-nhos ricos? Será porventura conveniente juntar à mesa um doutor da Lei com um pastor ignorante ou um fariseu com um publicano?

Já o notámos: não é o Jesus sentado à mesa numa casa da Palestina quem fala, mas sim o Senhor ressuscitado que se dirige ao fariseu presente nas comunidades de Lucas. É o Cristo quem faz recomendações aos discípulos que se comportam como fariseus, que discriminam. E o que diz Ele?

Diz que é preciso dar início a um novo banquete onde as quatro categorias das «pessoas de bem» cedam o lugar a outras quatro: «Quando ofereceres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos» (v. 13).

Os inválidos, os cegos e os coxos não eram admitidos no Templo do Senhor (Lv 21, 18; 2Sm 5, 8). A sua condição era um sinal claro do seu estado de pecado e a assembleia dos Israelitas devia ser composta por gente íntegra, perfeita, pura, sem defeitos. Jesus anuncia ter vindo para dar início a um banquete novo, um banquete onde os excluídos, as pessoas rejeitadas por todos se tornem os primeiros a ser convidados, aqueles para quem estão reservados os lugares de honra.

O seu discurso é dirigido a todos aqueles que, na comunidade cristã, estão encarregados de organizar o banquete do reino. A estas pessoas é pedida a coragem de seguirem critérios novos, opostos aos que são adoptados pela sociedade civil.

Não é fácil para as comunidades cristãs assimilarem os critérios de Deus. Desde as origens que na Igreja explodiram tensões devido a discriminações ditadas por critérios deste mundo. Testemunha-o Tiago que, na sua Carta, é obrigado a chamar a atenção dos cristãos: «Suponhamos que entra na vossa assembleia um homem com anéis de ouro e bem trajado, e entra também um homem muito mal vestido, e, dirigindo-vos ao que está magnificamente vestido, lhe dizeis: “Senta-te tu aqui, num bom lugar!, e dizeis ao pobre: “Tu, fica aí de pé!; ou “Senta-te no chão, abaixo do meu estrado.” Não é verdade que, então, fazeis distinções entre vós mesmos e julgais com critérios perversos?» (Tg 2, 2-4).

Os pobres, os cegos, os aleijados, os coxos, representam aquelas pessoas que erraram na vida. São o símbolo de quem caminha sem a luz do Evangelho e tropeça, cai, magoa-se a si mesmo e aos outros, passa de um erro ao outro. Jesus recorda aos seus discípulos que a festa foi organizada precisamente para estes. Ai de quem os exclua.

 

Concluindo a sua exortação, afirma: acolhendo aquele que todos rejeitam «serás feliz por eles não terem com que rejubilar-te: ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos» (v. 14).

Quando as pessoas fazem um favor, pensam logo na contrapartida; quase por instinto calculam as vantagens que daí possam tirar. Esta lógica é bem ilustrada pela recomendação de Esíodo (séc. VIII a.C.): «Convida para a tua mesa quem te ama e deixa estar o inimigo. Ama quem te ama; vai a quem vem ter contigo. Dá a quem te dá, não dês a quem não dá.»

Jesus pede ao discípulo para amar gratuitamente, para fazer o bem com deficit. Recomenda que acolha em casa aquelas pessoas que não podem dar nada em troca. A recompensa será dada por Deus no céu.

Esta afirmação precisa de um esclarecimento. O convite a ajudar o pobre, pensando na riqueza que assim se acumula no céu, pode ainda ser um comportamento egoísta. É um servir-se do pobre para «transferir os próprios capitais para o Paraíso». Este amor é antipático, é manhoso.

O pobre deve ser amado porque é amável, não por compaixão ou assumindo uma atitude de orgulhosa superioridade (talvez até mesmo só espiritual). Sem dúvida que não é fácil descobrir qualquer coisa de simpático, de atraente num inimigo, num malfeitor. Os olhos humanos nunca conseguiriam descobrir nada de amável nestas pessoas se a palavra do Senhor não purificasse os olhares, não curasse a cegueira. É Jesus que nos leva a entender que, se Deus ama cada pessoa, isso significa que nela há sempre algo de maravilhoso.

Qual será a recompensa?

Quem ama tendo apenas por objectivo o bem do irmão torna-se semelhante ao Pai que está nos céus, faz a experiência da sua mesma alegria.

A felicidade de Deus está toda aqui: em amar gratuitamente.

Realiza-se a promessa de Jesus: «Será grande a vossa recompensa: sereis filhos do Altíssimo» (Lc 6, 35). Não se pode querer mais.

Fonte: O Banquete da Palavra / Fernando Armellini : Paulinas Editora

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Mistérios Gloriosos

 

   
 


Última actualização: 2010-09-01 00:00:00

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