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Teresa Forcades, a freira sem medo 2013-11-19 11:20:46 Conhecida como "a freira mais radical da Europa", Teresa Forcades esteve em Portugal para apresentar o livro A Teologia Feminista na História.
A monja beneditina Teresa Forcades está em divergência com a Igreja em muitos temas fracturantes, é anticapitalista e espera uma "revolução pacÃfica" na Europa, mas elogia o Papa Francisco por ter vontade de mudar as coisas.
Já recebeu uma carta da Santa Sé e foi alvo da ira de católicos mais conservadores. Não rejeita cegamente o aborto, aceita o casamento gay, a adopção por parte destes casais, defende o acesso das mulheres ao sacerdócio. Catalã, de 47 anos, estudou Medicina e Teologia, e aos 30 abraçou a vida monástica. É anticapitalista e faz parte de um movimento que reivindica a independência da Catalunha. Do vocabulário que usa fazem parte palavras que causam desassossego na Igreja: revolução, ruptura, mudança, polÃtica, desobediência civil.
O encontro de Teresa Forcades com a fé dá-se aos 15 anos. Como não cresceu numa famÃlia religiosa – os pais eram católicos não-praticantes – sempre achou que Igreja era uma instituição “caducaâ€. Na adolescência leu os evangelhos: “Quando terminei, tive uma sensação de indignação. Vivi 15 anos sem saber isto? Foi muito forteâ€, recorda a irmã beneditina que, apesar de este ano estar em Berlim a dar aulas de Teologia, vive no Mosteiro de St. Benet de Montserrat, perto de Barcelona.
Estudou Medicina, que já não exerce, na Universidade Estatal de Nova Iorque e Teologia em Harvard. Doutorada em ambas as áreas, tem uma tese sobre medicinas alternativas. O recurso excessivo a medicamentos é outro dos temas que a preocupam. Escreveu um livro chamado Crimes das Grandes Companhias Farmacêuticas e ficou conhecida por se ter oposto à vacina da gripe A e desmontado vários aspectos ligados a este mediático caso de saúde.
A vocação monástica só surgiu aos 28 anos, aos 30 entra para o mosteiro. Na adolescência, nunca pensou que iria ser monja: “Por causa do celibato; imaginava que não se podia ser feliz sem um parâ€, conta.
Na Igreja Católica é muito fácil esconder-se atrás da tradição e ele [Papa Francisco] não faz isso
Teresa Forcades
Hoje aceita que o repto da vida religiosa passa por trabalhar a afectividade: “As pessoas casadas ou com um par também podem ter esta experiência de se sentirem atraÃdos por outra pessoa, e têm igualmente de trabalhar issoâ€. As pessoas da Igreja também se apaixonam. Já lhe aconteceu e teve de trabalhar a emoção: “É um desafio, sempreâ€, admite.
Teresa Forcades esteve em Lisboa na sexta-feira, dia 15, a falar sobre As Falsas Democracias e as Consequências PolÃticas da Noção Cristã de Pessoa, no III Colóquio de Teologias Feministas, organizado pela Associação Portuguesa de Teologias Feministas em colaboração com o Policredos – Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. No sábado, apresentou A Teologia Feminista na História, que o padre e poeta José Tolentino Mendonça considera um “verdadeiro livro do desassossegoâ€. Nele, Forcades pergunta: “Por que é que as contribuições intelectuais das mulheres tiveram tendência a desaparecer da História?â€
“É verdade que os homens dominam a História ou o mundo? Porquê? É verdade que não quiseram ou não puderam preservar as contribuições intelectuais das mulheres ou tê-las em conta? Porquê? E Deus, o que diz de tudo isto?â€. Ela faz muitas perguntas
Muitas das posições que assume estão no livro Conversas com Teresa Forcades. Aceita o casamento entre homossexuais, que adoptem crianças e defende que uma mulher que aborta não deve ser perseguida nem punida. “Para uma pessoa religiosa, católica, cristã, e para qualquer pessoa, o respeito pela vida é fundamental, e eu não vou contra isso. O que se passa é que eu não quero que a mulher que aborta vá para a prisão. Entendo que as circunstâncias são complexas. Mas sou contra que a pessoa que aborta tenha essa pena e seja perseguidaâ€, sintetiza.
Convicções que lhe valeram uma carta do Vaticano em 2009, em que lhe era pedido que se explicasse. Ela fê-lo, mas não recuou. “O conflito entre o direito à vida e à autodeterminação do próprio corpo é um tema complexoâ€, diz. Dá um exemplo: no caso de um pai que tenha um filho que precise de um rim para sobreviver, a Igreja não o obriga a dar esse rim. “Por que é que não fazemos uma lei católica que diga que tem a obrigação, naturalmente, de dar o rim ao filho? O pai não vai morrer, só vai salvar a vida do filhoâ€, questiona.
Creio que temos uma Igreja que, na sua estrutura, é patriarcal e misógina. Realmente discrimina as mulheres. Impede o acesso ao sacerdócio e as tomadas de decisões também não estão abertas às mulheres
Teresa Forcades
Ser polémica não lhe agrada, mas é impossÃvel não agitar as águas. Foi alvo da indignação de cerca de cinco mil católicos que assinaram uma petição a pedir que fosse suspensa. A esta seguiu-se outra de apoio, que reuniu cerca de 12 mil subscritores.
Agitar as pessoas
Com tanta abertura em relação a temas fracturantes, não é de estranhar que se entusiasme com o inquérito do Papa Francisco para a preparação do SÃnodo da FamÃlia. Para este sÃnodo – que vai ter duas assembleias gerais, uma extraordinária, em Outubro de 2014, e uma ordinária, em 2015 – o Papa quer ouvir as bases sobre temas como o aborto, a contracepção, o divórcio, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a adopção por parte destes casais. Não é um referendo, mas está a dar que falar.
“É um primeiro passo. A solução de um conflito é dar-se conta de que existe e quantificá-lo. É muito importante. O que está a pedir o Papa? Que os bispos saibam quantas pessoas divorciadas têm nas suas dioceses, quantas gostariam de receber o sacramento da comunhão e que agora estão impossibilitados por culpa do divórcio. É muito bom, saber quantos háâ€, diz, repetindo os mesmos argumentos para casais que vivem juntos, sem ou antes do matrimónio, sejam heterossexuais ou homossexuais.
Para a irmã beneditina, este levantamento permite outro olhar sociológico sobre estas questões. “Uma coisa é saber em genérico que existe o divórcio, os casais homossexuais, outra coisa é quantificar em cada diocese. O mesmo para a contracepção. Quantas mulheres utilizam? É óbvio, também em Portugal, que as famÃlias católicas não têm 20 filhos. Algo se passa...â€, diz, sorrindo.
Apesar das expectativas criadas em torno do inquérito, no final da reunião da assembleia geral da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), que decorreu em Fátima na passada semana, o assunto mereceu apenas dez linhas num comunicado de sete páginas. O patriarca de Lisboa e presidente da CEP, D. Manuel Clemente, defendeu que o protagonismo já tinha sido dado pelo Papa e garantiu que a CEP abraça, e vai cumprir, o apelo, sendo bem-vinda a contribuição de todos os católicos.
No entanto, na carta pastoral A Propósito da Ideologia de Género, os bispos deixam bem clara a posição em relação ao aborto ou ao casamento gay, e apelam mesmo à revogação das leis. Entre outros excertos, pode ler-se que “os cidadãos e legisladores que partilhem uma visão mais consentânea com o ser e a dignidade da pessoa e da famÃlia são chamados a fazer o que está ao seu alcance para as revogarâ€.
Na carta, lê-se ainda que “nunca um ou mais pais podem substituir uma mãe, e nunca uma ou mais mães podem substituir um pai†e que “uma criança desenvolve-se e prospera na interacção conjunta da mãe e do pai, como parece óbvio e estudos cientÃficos comprovamâ€.
Representa isto um retrocesso em relação à abertura pastoral do Papa? Teresa Forcades entende que é uma defesa de alguns sectores da Igreja. Como se, diante de tanta agitação, estivessem a dizer: “Não pensem que algo vai mudarâ€: “Não sei o que se vai fazer com os resultados do inquérito, por isso poria aqui uma nota de precaução. Porque podemos ter uma decepção. Creio que é positivo que se estude isto, mas não quer dizer que vá haver mudanças. Pode haver, e é positivo, mas vamos ver...â€, acautela.
Apesar de a última palavra vir sempre do topo, Teresa Forcades diz que só a expectativa já é de saudar: “Mesmo que a resposta oficial seja a de que não há alterações, já se está a gerar uma expectativa social, e depois não há quem a pare. É bom que as pessoas se agitem, para que haja mudançasâ€.
De uma forma geral, o que Teresa Forcades destaca no Papa Francisco é “essa vontade que tem demonstrado em mudar coisasâ€: “Na Igreja Católica é muito fácil esconder-se atrás da tradição e ele não faz issoâ€. Além disso, não tem dúvidas de que está a tornar-se uma ameaça para muitos “interessesâ€. NotÃcias recentes deram conta de que os alertas do Papa contra a corrupção – dentro e fora do Vaticano – poderiam tê-lo colocado na mira da máfia. O procurador responsável pelos processos da N'drangheta, a organização criminosa calabresa, diz que os grupos estão “nervosos e agitados†com tantas chamadas de atenção do Papa.
No capitalismo posso contratar alguém com o seu trabalho, ganhar mil euros e pagar-lhe um euro. Não me parece bem. É imoral. Não quero esse mundo
Teresa Forcades
Deus e dinheiro
Também em relação à s mulheres, esta monja defende que teologicamente nada impede não só que sejam cardeais, como acedam ao sacerdócio. “Creio que temos uma Igreja que, na sua estrutura, é patriarcal e misógina. Realmente discrimina as mulheres. Impede o acesso ao sacerdócio e as tomadas de decisões também não estão abertas à s mulheresâ€, diz. Não é só isto que “tem de mudar radicalmenteâ€, a Igreja também tem de ser entendida “de um modo menos clericalâ€, acrescenta.
Multifacetada, gosta ainda da palavra polÃtica. Faz parte do movimento de cidadãos Procés Constituente, que está a criar um modelo para um estado independente e livre do capitalismo na Catalunha – e que tem acções de desobediência civil marcadas para dia 30.
No Evangelho diz-se que não se pode servir a Deus e ao dinheiro, isto é anticapitalismo. "No capitalismo posso contratar alguém com o seu trabalho, ganhar mil euros e pagar-lhe um euro. Não me parece bem. É imoral. Não quero esse mundoâ€, esclarece. Entre outros modelos de organização, defende, por exemplo, as cooperativas. “Esta sociedade que imagino não é uma sociedade controlada por um comité central. Não quero o capitalismo nem um governo que controle tudo. Não quero isso para nada, já vimos isso na História e é um desastreâ€, frisa.
Diz que os partidos polÃticos, tal como existem e são financiados, são reféns do poder económico e não estão a servir a democracia. No livro Sem Medo, escrito com a especialista em movimentos sociais Esther Vivas, defende, entre outras ideias, a incompatibilidade entre capitalismo e democracia.
Esta monja beneditina, para quem o mundo é hoje um conjunto de “falsas democraciasâ€, foi considerada pela BBC como uma das mais influentes intelectuais de esquerda e “a freira mais radical†da Europa. Ela acredita que o momento que se vive na Europa é uma “oportunidade polÃtica†para a mudança. Não uma mudança “de cosméticaâ€, não uma “reformaâ€, mas uma ruptura, uma revolução: “Uma revolução pacÃfica e democráticaâ€.
Fonte Público
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