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Como se vive a Quaresma entre os cristãos?
2009-03-18 22:15:19

A Agência ECCLESIA apresenta esta semana um olhar sobre várias perspectivas ligadas à preparação da Páscoa: como se celebra noutras Igrejas, qual a sua origem histórica, o que significa para quem entra na Igreja Católica através do Baptismo. Perspectivas que se cruzam e ajudam a dar sentido à vivência deste tempo litúrgico.

O ano litúrgico como hoje o conhecemos pretende levar os católicos a celebrar sacramentalmente a pessoa de Jesus Cristo como "memória", "presença", "profecia". Na Igreja primitiva, o mistério, a celebração, a pregação, a vida cristã tiveram um único centro: a Páscoa - o culto da Igreja primitiva nasceu da Páscoa e para celebrar a Páscoa. No início da vida cristã encontra-se o Domingo como única festa, com a única denominação de "Dia do Senhor". Por influência das comunidades cristãs provenientes do judaísmo, surgiu depois um "grande Domingo", como celebração anual da Páscoa.

A celebração do baptismo na noite de Páscoa, já em uso no século III, e a disciplina penitencial com a reconciliação dos penitentes na manhã de Quinta-feira Santa, já no século V, fizeram nascer também o período preparatório da Páscoa, ou seja, a Quaresma, inspirada nos "quarenta dias bíblicos".

A Semana Santa apresenta-se, neste contexto, como a Semana Maior do ano litúrgico. Graças à peregrina Egéria, que viveu no final do século IV, conhecemos os rituais que envolviam estas celebrações no princípio do Cristianismo.
Ela descreve, no seu livro "Itinerarium", a liturgia que se desenvolveu em Jerusalém, teatro das últimas horas de vida de Jesus, e compreende o intervalo de tempo que vai do Domingo de Ramos à Páscoa.

Na Idade Média, esta semana era chamada a "semana dolorosa", porque a Paixão de Cristo era dramatizada pelo povo, pondo em destaque os aspectos do sofrimento e da compaixão. Actualmente, muitas igrejas locais dão ainda vida a essa tradição dramática, que se desenrola na Via-Sacra, procissões e representações da Paixão de Jesus.

Octávio Carmo


As outras Igrejas

Paixão, morte e Ressurreição de Cristo são as doutrinas comuns a todos os ramos do Cristianismo e que, ao mesmo tempo as distingue das outras religiões. A Quarta-feira de cinzas marca o início da Quaresma para todas as Igrejas cristãs, mas apenas a tradição católica a assinala obrigatoriamente com a simbologia da imposição das cinzas.

A Igreja Lusitana de comunhão Anglicana e também a Presbiteriana diferem pouco da tradição católica. Pequenos detalhes marcam a diferença. “A Igreja Lusitana é católica mas não é romana, ou seja, não reconhecemos a autoridade a Roma. A actividade litúrgica é, por isso, muito semelhanteâ€, explica o Bispo Fernando Soares. O tempo de Quaresma principia na Quarta-feira de cinzas com o rito de imposição das cinzas. Não é uma prática de todas as igrejas, “dependerá da sensibilidade das comunidadesâ€. Também a Igreja Evangélica Metodista Portuguesa não tem doutrinas nem normas específicas sobre este culto, mas em alguns países, “apenas em sentido tradicional e voluntário, há uma cerimónia nesta data, com ou sem imposição de cinzasâ€, explica o Pastor Jorge Barros.

Talvez a maior “detalhe†nas celebrações da Igreja Lusitana aconteça no Domingo de Ramos. Durante a Quaresma, são feitas, em folhas de palmeira, pequenas cruzes que no último Domingo da Quaresma, são abençoadas e distribuídas aos fiéis que, durante a leitura do Evangelho sobre a crucificação de Jesus, as seguram na mão. “É uma cruz pequena que se usa para marcar os livros. Algumas pessoas gostam inclusivamente de levar para alguns familiaresâ€. Um pequeno símbolo que pretende “reforçar a relação de cada um com a cruz de Cristoâ€, explica o Bispo Fernando Soares.

A tradição Presbiteriana aponta como diferença a leitura do Evangelho no Domingo de Ramos. Enquanto a tradição católica revive toda a paixão de Cristo neste Domingo, a Igreja Presbiteriana apenas lê a entrada de Jesus em Jerusalém, deixando o restante relato para a Semana Santa. Os sete dias antes da Páscoa são um tempo especial de preparação para os fiéis presbiterianos e também para os metodistas. “A Semana Santa é a época do ano em que temos mais serviços religiosos, em especial nas igrejas paroquiais maiores, onde há serviços durante toda a semana, excepto no Sábadoâ€, explica o pastor Jorge Barros.

Semana Santa

Todas as Igrejas têm um culto especial na Quinta-feira e na Sexta-feira Santa. Algumas comunidades Presbiterianas encontram-se todos os dias da Semana Santa. “A organização fica dependente de cada comunidade que poderá organizar actividades para os mais novos e mais velhosâ€, explica Eva Michel.

Durante a Quaresma a atenção principal centra-se nas passagens bíblicas e na reflexão pessoal de cada um, “para que possamos viver com maior atenção aos outros, a nós próprios, com a natureza e com Deusâ€. Este é o centro da prática quaresmal da Igreja Presbiteriana.

Tradicionalmente, nas Igrejas protestantes, a espiritualidade centrou-se na Sexta-feira Santa e na redenção. Eva Michel recorda a devoção que leva as pessoas ao culto na Sexta-feira santa, mesmo que estejam ausentes durante o resto do ano. No entanto, o diálogo ajudou a corrigir os extremos e, a pastora Eva explica que, hoje entende-se a necessidade de ampliar os horizontes. “A cruz sem ressurreição é muito vazia, mas a celebração da ressurreição sem olhar para o sofrimento na cruz também é insuficiente. Para ver a morte de Jesus temos de a perceber enquanto consequência da sua vida e não isolá-la. Isto significa redescobrir o profundo mistério que é a Páscoaâ€.

Na tradição baptista, durante a Semana Santa, há cultos vespertinos ou serviços religiosos à noite, em especial na Quinta-feira e Sexta-feira santa, onde são lembradas, através de textos e hinos, as últimas 48 horas de Jesus, a última ceia com os discípulos e a crucificação. “Existem muitos sermões sobre a descrição histórica do que aconteceuâ€. Os cânticos e os textos sagrados centram-se no sofrimento de Jesus. “Os evangélicos consideram que a salvação é de graça, mas não a foi para Jesus. Teve um alto preço e por isso os pastores recordam aos crentes que este foi um sofrimento atroz e dão ênfase ao preço do sofrimento para a salvaçãoâ€, afirma Fernando Loja.

Tríduo Pascal

Das Igrejas cristãs, apenas a Católica realiza a Via-sacra na tarde de Sexta-feira santa, reconstruindo os último passos de Cristo. Na Sexta-feira Santa, a Igreja Lusitana prepara um momento devocional pelas 15 horas nas comunidades e também à noite, onde o culto se debruça sobre a crucificação. “A reflexão é conduzida pela pregação, pelos textos sagrados e por cânticosâ€. O culto de Quinta-feira santa termina com a desnudação do altar. “Todas as alfaias litúrgicas, a cruz, as flores, velas, a toalha são retirados com o objectivo de lembrar que Jesus foi sepultado e tudo ficou nuâ€. Na Sexta-feira o culto decorre na austeridade e apenas na Vigília Pascal de Sábado os elementos litúrgicos são repostos. Quando anunciada a ressurreição, acendem-se as luzes, “começando uma nova vidaâ€. Um rito semelhante à tradição católica que habitualmente inicia a celebração com a bênção do fogo no exterior da igreja. No Domingo celebra-se o dia da Ressurreição. O convívio após o culto, num almoço familiar, é uma tradição que o Bispo da Igreja Lusitana lamenta estar-se a perder. “Até no Natal as pessoas já optam por ir ao restaurante ou a hotéis porque não querem cozinharâ€.

A tradição Metodista celebra um culto na Sexta-feira santa “muito solene e por vezes emotivo e são realçados os acontecimentos centrados na crucificação e morteâ€, explica o Pastor Jorge Barros. Leituras bíblicas longas e apropriadas e hinos de sofrimento e tristeza, “embora de fé†conduzem os fiéis. Este é um dia em que a frequência na Igreja é “muito maior que o habitual, incluindo crentes pouco assíduos e visitantesâ€.

A tradição Presbiteriana não realiza a Vigília Pascal. Algumas comunidades organizam um culto durante a noite, que pode começar de madrugada e prolongar-se até ao nascer do Sol. “Quando o Sol se levanta, celebra-se a Ressurreição de Cristoâ€, afirma a pastora Eva Michel. A comunidade de Setúbal, por exemplo, desloca-se à Serra da Arrábida e têm o culto no exterior enquanto esperam pelo Sol. “Costuma seguir-se um pequeno-almoço comunitárioâ€. Quem celebra o culto durante a noite já não participa no culto de Domingo.

Para os fiéis Baptistas a grande celebração é feita no Domingo de Páscoa. “Algumas comunidades fazem uma celebração fora de portas, pelas 7 horas da manhã, porque segundo os textos sagrados Jesus ressuscitou muito cedo, ainda o sol não tinha despontadoâ€. Segue-se um pequeno-almoço comunitário e os fiéis juntam-se no habitual culto dominical. Fernando Loja explica que neste culto se “entoam cânticos específicos e é um Domingo de alegriaâ€. Terminado o culto, as famílias reúnem-se num almoço festivo. Sem ser regra, algumas comunidades realizam almoços comunitários.

A Igreja Metodista celebra um culto no Domingo da Ressurreição “centrado na vitória da Vida e na alegria da Féâ€. A Igreja é ornamentada com flores brancas e são entoados hinos de «Aleluia».
Apenas a tradição católica realiza o Compasso no Domingo da Ressurreição. As Igrejas cristãs Baptista, Lusitana, Presbiteriana e Metodista não usam o crucifixo mas a cruz que mantêm no local de culto. O pastor Jorge Barros explica que “a cruz vazia dá mais realce à vida, embora sem esquecer o sofrimento e morte de Cristoâ€. Fernando Loja explica que os Baptistas têm a cruz fixa na parede “e não anda de mão-em-mão. Não pode ser removidaâ€.

Jejum e Renúncia

As práticas do jejum e a renúncia quaresmal são entendidos como opcionais e não impostos pelos líderes espirituais aos fiéis das Igrejas Baptista, Lusitana, Presbiteriana e Metodista.

As Igrejas protestantes assumem como sacramentos o Baptismo e a Eucaristia, pois são os que, segundo a Bíblia, foram instituídos por Cristo. “Apesar de falar também da reconciliação, não foi Jesus que disse para o fazer em sua memória. Não chamamos a reconciliação um sacramento†e por isso não é praticado no confessionário, explica Eva Michel, pastora da Igreja Presbiteriana. Também a Igreja Baptista não reconhece a penitência como factor de purificação. “Entendemos que não precisamos de fazer penitência pelos pecadosâ€, dá conta Fernando Loja da Igreja Baptista. “Jesus pagou o preço e o perdão é concedido gratuitamente a quem confessar directamente a Deus a sua faltaâ€. A remissão deverá ser directa, quando estiver alguma pessoa em causa. “Não temos nenhuma privação na alimentação, nem especificamente em alguns diasâ€. Este cristão Baptista expressa que, para os evangélicos, “é difícil compreender o jejum. A privação e o sofrimento enquanto instrumento de purificação para nós não existemâ€.

Já na Igreja Lusitana de comunhão Anglicana a prática do jejum e da renúncia quaresmal são recomendadas. O Bispo Fernando Soares escreveu uma carta aos cristãos anglicanos a solicitar a renúncia quaresmal enfatizando duas vertentes - “o aprofundamento da espiritualidade interior e a relação com os outros, exprimindo a solidariedade com quem se encontra em dificuldadesâ€. A liturgia anglicana exprime o apelo ao jejum, à renúncia, à oração e à leitura reflexiva da Palavra de Deus. Apelos dirigidos ao tempo de Quaresma como “preparação para a Semana Santa e Páscoaâ€.

Páscoa, centro da mensagem cristã

Sem um calendário litúrgico específico e com uma grande autonomia de comunidade para comunidade, a Igreja Baptista assume como central a celebração da Páscoa. Mais do que a celebração do Natal. “O Natal é necessário porque o filho de Deus precisava de se tornar homem, mas é instrumental. Se Deus não tivesse planeado a Páscoa, não haveria Natalâ€. A celebração do Natal é vista como “a promessa de Páscoaâ€, explica Fernando Loja.

O Bispo Fernando Soares da Igreja Lusitana lamenta que alguns aspectos da vivência tradicional da Páscoa se estejam a perder. “As alterações sociais e civilizacionais assim o dita, mas conduziram a um entendimento do lazer e do descanso diferenteâ€. Chegados à Páscoa, “as pessoas optam por mini férias e diminuiu a presença nas celebrações pascaisâ€. Entre os fiéis praticantes, o Bispo da Igreja Lusitana explica que a celebração do Domingo de Páscoa “é muito participadaâ€.

A vivência da Páscoa acentua a espiritualidade pessoal e em comunhão na Igreja Presbiteriana. “A Quaresma conduz-nos durante os 40 dias, mas o tempo forte é a Semana Santaâ€, explica a pastora Eva Michel, que afirma não notar menos participação na altura da Páscoa. “Continua a ser um momento alto na nossa Igrejaâ€.

Para a Igreja Metodista, a Quaresma é uma época não apenas de caminho, mas de preparação para a Páscoa Cristã, apontando para a centralidade dos acontecimentos centrais da Fé (Paixão, morte e Ressurreição de Cristo). A pastora presbiteriana Eva Michel explica que na Bíblia há muitas formas de falar da cruz e da Ressurreição e “todas as tradições se podem enriquecer mutuamenteâ€.

Lígia Silveira

Fonte Ecclesia

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