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Inteligência Espiritual

  Domingo, 24 de Setembro de 2017    Orações Terço Via-Sacra Via Lucis

2. Como rezar?

São Paulo escreveu: “Não sabemos como rezar, mas o Espírito reza em nós”. Eis a chave para compreender o verdadeiro sentido da oração cristã.

Ele refere-se assim à oração profunda do coração, onde encontramos “o amor de Deus disperso nas profundezas do nosso coração pelo Espírito Santo que Ele nos deu”.

A questão é saber como nos podemos abrir a essa torrente de amor que atinge o mais “profundo do nosso ser”?

Consideremos, em primeiro lugar, os três elementos essenciais da oração contemplativa. Eles dão a resposta à pergunta “como rezar”. Rezamos ficando silenciosos, despertos e descontraídos.

1. O Silêncio

O silêncio é necessário, tanto para a nossa saúde mental, como para o nosso crescimento espiritual. Contudo, torna-se cada vez mais difícil de praticar o silêncio no centro das cidades modernas, no barulho da circulação, da rádio e da televisão.

Mas o verdadeiro silêncio é interior. Com efeito, se nos encontramos num lugar muito barulhento e se nos concentrarmos, podemos “fazer” o silêncio em nós. Aprendemos a estar em silêncio ao nos concentrarmos.

Nada nos impede de estar em silêncio numa rua movimentada, no congestionamento do trânsito ou numa fila de espera na caixa do supermercado. Aprender o silêncio, ensina-nos a rezar em qualquer situação.

O silêncio é verdade. O silêncio é cura. O silêncio pacifica as nossas perturbações interiores. O silêncio é o remédio para o azedume e a raiva.

No silêncio aprendemos a linguagem do Espírito. Deus difunde a sua palavra do seu silêncio infinito.

O silêncio na oração, como entre duas pessoas, é um sinal de confiança e de aceitação.

Não se trata apenas de uma ausência de ruído, pois o silêncio é uma questão de atitude e de disposição de viver em vigilância e quietude.

2. A Quietude

O salmo diz: “Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus” Sl 46,2. A quietude não significa um estado de inércia ou de morte.

A quietude constitui o equilíbrio de todas as forças e energias diferentes de um ser humano: o físico, o mental, o espiritual.

Tal como o silêncio, a quietude tem as mesmas dimensões interiores e exteriores. Na oração devemos alcançar a imobilidade do corpo. É esse o primeiro passo da nossa peregrinação em direcção a Deus, ao centro do nosso ser.

A imobilidade física ajuda-nos a tomar consciência de que o nosso corpo é sagrado: “templo do Espírito Santo”.

Porém, a outra dimensão da quietude é interior. Alcançar a imobilidade do espírito constitui o grande desafio da oração. Como nos podemos acomodar à constante actividade mental? Os budistas afirmam que se efectuam 151 operações mentais em simultâneo… Os nossos desejos, os nossos sonhos, as nossas esperanças podem dividir e dominar o nosso espírito.

3. A Simplicidade

A oração cristã desperta-nos para a realidade de que somos habitantes do Reino de Deus. Jesus revelou-nos que o Reino de Deus está dentro de nós e que também nos devemos tornar como crianças, se quisermos entrar no Reino. “O Reino não é um lugar, mas sim uma experiência” (John Main). Ser simples, não é fácil. Analisamo-nos constantemente. Analisamos os nossos sentimentos, o que nos motiva, as outras pessoas e esta atitude constante de nos dobrarmos sobre nós próprios, torna-nos muito complicados.

Mas Deus é simples – o amor é simples – a meditação é simples.

Ser simples significa, ser autêntico, ou seja, ir para além da consciência de si próprio e da auto-análise.

A meditação é uma prática espiritual universal que nos guia em direcção a esse estado de oração, à oração de Cristo.

Essa oração conduz-nos ao silêncio, à quietude e à simplicidade por um processo, também ele, silencioso, pacificador e simples.

Este processo é a repetição de uma breve palavra sagrada, na fé e no amor, ao longo do tempo de meditação. Essa palavra chama-se mantra. Esta forma antiga de oração cristã foi redescoberta pelo monge beneditino John Main (1926-1982) para cristãos dos tempos modernos.

John Main redescobre este processo de unir o coração, a partir do ensinamento dos primeiros monges cristãos, os Padres do Deserto, principalmente de João Cassiano (séc. IV A.D.). Este ensinamento vai na mesma tradição de “A Nuvem do Não-Saber”, publicado em Inglaterra no séc. XIV.

O Frei John ensina-nos que para meditar devemos:

  1. Sentarmo-nos e permanecermos quietos, de costas bem direitas;
  2. Fechar os olhos
  3. Repetir a palavra mantra interiormente e de forma contínua.

Deve-se escolher um lugar calmo, um momento de tranquilidade de manhã e à noite e meditar aproximadamente 20 a 30 minutos de cada vez.

Um mantra ideal é maranatha, uma antiga oração oriunda do aramaico. Repeti-la continuamente, apoiando igual e claramente cada uma das sílabas. Dizê-la pausadamente e sem nada esperar. Escutar o mantra com todo o nosso ser. Assim que surja uma distração, retomar o mantra calmamente.

O aramaico era a língua de Jesus. É a mesma língua da palavra “abba”. “Maranatha” é a oração cristã mais antiga, que significa “Vem Senhor” ou “o Senhor vem”. São Paulo termina a primeira epístola aos Coríntios e São João, o livro do Apocalipse, com esta frase, que exprime a fé profunda e simples dos primeiros cristãos.

O significado e a ressonância desta palavra são dois elementos importantes. Contudo, ao dizer a palavra mantra, não se deve pensar no seu significado. O mantra conduz-nos de forma mais profunda do que os nossos pensamentos, ao âmago do nosso ser. Leva-nos através da fé. Dizemos o mantra na fé e no amor.

Eis três regras que nos ajudarão a persistir:

  • Não ter nenhum pedido ou expectativa;
  • Não avaliar a nossa meditação;
  • Integrar a meditação na nossa vida do quotidiano e viver cada dia as suas consequências.



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